Mais de metade das mulheres considera difícil regressar ao trabalho após cancro da mama
Um estudo da Sociedade Portuguesa de Senologia, que envolveu 559 mulheres, revela que 52,4% consideraram difícil ou muito difícil o regresso à atividade profissional. A fadiga persistente, as alterações cognitivas, o medo de recidiva e a falta de preparação estão entre os principais obstáculos identificados.

Mais de metade das mulheres que regressaram ao trabalho após um diagnóstico de cancro da mama enfrentou dificuldades significativas neste processo, que continua a ser marcado por sintomas físicos e psicológicos, falta de informação e apoios insuficientes. A conclusão é de um estudo promovido pela Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS), em colaboração com o Departamento de Ciências Matemáticas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que defende uma reintegração profissional planeada, gradual e adaptada às necessidades de cada mulher.
O relatório, intitulado Regresso ao trabalho após cancro da mama, resulta de um questionário online aplicado entre maio e setembro de 2026 a 559 mulheres diagnosticadas com a doença. Os resultados foram apresentados a 14 de outubro, no Fórum Vozes ROSA, em Alcobaça, pelas oncologistas Susana Sousa e Mónica Nave, coordenadoras do Grupo de Trabalho Reinserção Social e Profissional da SPS.
Embora 83,7% das participantes estivessem a trabalhar no momento do inquérito, 60,5% demoraram mais de seis meses a regressar à atividade profissional, incluindo 34% que só o fizeram após mais de um ano. Entre as mulheres que retomaram o trabalho, 64% regressaram de forma imediata, 29% gradualmente e 7,1% de forma intermitente.
O estudo revela ainda que apenas metade das participantes teve um regresso previamente planeado. Das 468 mulheres que retomaram a atividade profissional, 52,4% classificaram a experiência como difícil ou muito difícil e 36,3% afirmaram sentir-se pouco ou nada preparadas para esta transição.
Para Mónica Nave, ouvir diretamente as mulheres foi essencial para conhecer os obstáculos que enfrentam nesta fase.
“Embora a experiência clínica nos permita identificar muitas das dificuldades associadas ao regresso ao trabalho, sentimos que era fundamental ouvir as próprias mulheres. Este questionário permite-nos conhecer melhor as suas necessidades e identificar áreas em que podemos intervir para melhorar a reintegração profissional”, afirma a oncologista.
Fadiga e medo de recidiva entre os principais obstáculos
Os resultados mostram que as consequências do cancro da mama podem continuar a condicionar a vida profissional mesmo após as fases mais intensivas do tratamento.
A fadiga persistente foi classificada como intensa ou muito intensa por 56,7% das participantes, enquanto 53,5% identificaram sintomas vasomotores com a mesma intensidade e 51,5% referiram alterações cognitivas significativas.
Na dimensão psicológica, o medo de recidiva associado ao stress profissional destacou-se como uma das dificuldades mais expressivas, tendo sido considerado intenso ou muito intenso por 59,2% das mulheres. A preocupação em não conseguir corresponder às exigências profissionais foi assinalada por 49,6% e a ansiedade associada ao regresso ao trabalho por 48,5%.
O impacto da doença na vida profissional foi, aliás, classificado como elevado ou muito elevado por 64% das participantes.
A investigação identificou também alterações na forma como as mulheres encaram a sua vida profissional após o diagnóstico: 93,4% referiram alguma mudança nas prioridades relativamente ao trabalho, sendo que 56,4% consideraram essa mudança bastante significativa ou completa.
Falta de informação e de apoio dificulta reintegração
Além das limitações físicas e psicológicas, o estudo evidencia dificuldades no acesso à informação e aos mecanismos de apoio disponíveis.
Mais de um terço das participantes (36,3%) classificou como intensa ou muito intensa a falta de informação sobre direitos laborais, sociais ou jurídicos, enquanto 34,9% identificaram dificuldades significativas em obter esclarecimentos sobre apoios e adaptações possíveis no contexto profissional.
O acompanhamento psicológico constitui outra necessidade relevante. Apenas 32% das mulheres afirmaram não ter sentido necessidade deste apoio. Entre as 263 participantes que manifestaram necessidade de acompanhamento psicológico e ainda não o tinham antes do regresso, 89 (33,8%) não conseguiram aceder a esse apoio.
Também a resposta das entidades empregadoras revelou diferenças consideráveis. Enquanto 40,6% das participantes classificaram o apoio recebido como elevado ou muito elevado, 31% consideraram-no nulo ou reduzido.
“É fundamental sensibilizar as equipas clínicas, as entidades empregadoras e os colegas destas mulheres para as dificuldades que podem persistir após o tratamento. Muitas destas limitações não são imediatamente visíveis, mas têm impacto real na vida profissional. A informação, a compreensão e a adaptação das condições de trabalho podem fazer a diferença”, sublinha Susana Sousa.
Horários flexíveis e apoio psicológico entre as principais necessidades
Quando questionadas sobre as medidas que poderiam ter facilitado a reintegração profissional, 41% das participantes apontaram a possibilidade de trabalhar com horários flexíveis, 38% destacaram a importância de receber informação clara sobre direitos laborais e 31% identificaram o apoio psicológico.
A existência de programas estruturados de reabilitação foi considerada importante por 25,2% das mulheres, enquanto 24,4% referiram o teletrabalho como uma medida que teria facilitado o regresso.
Entre as participantes que regressaram ao mesmo emprego com adaptações, as alterações mais frequentes incluíram a mudança de funções (35,1%), a flexibilidade de horário (31%), a redução da carga física (29,2%) e o teletrabalho (28,1%).
Perante estes resultados, a SPS defende uma maior articulação entre equipas clínicas, medicina do trabalho e entidades empregadoras, com planos individualizados que permitam uma recuperação progressiva da atividade profissional.
“O regresso ao trabalho não deve ser encarado como o fim da baixa médica, mas como um processo de transição. É necessário planear esse regresso, garantir o acompanhamento adequado e criar condições de trabalho flexíveis, para que cada mulher possa retomar a sua atividade de forma sustentável, respeitando as suas capacidades e necessidades”, defendem as coordenadoras do Grupo de Trabalho Reinserção Social e Profissional da SPS.
Apesar das dificuldades identificadas, 72,4% das mulheres que regressaram à atividade profissional acreditam que poderão continuar a trabalhar nos próximos dois anos e 46,2% afirmam estar satisfeitas ou muito satisfeitas com a sua situação profissional atual.
A investigação envolveu maioritariamente mulheres entre os 45 e os 54 anos (49,6%), com escolaridade superior (69,6%) e residentes nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo (53,1%) e Norte (25%).
Os autores ressalvam que, devido à natureza descritiva do estudo e às características da amostra, os resultados não permitem estabelecer relações de causalidade nem podem ser generalizados a todas as mulheres com cancro da mama em Portugal.
Sílvia Malheiro/Comunicado
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