19 Fev, 2020

Mais de 50% dos doentes com DPOC em tratamento permanecem sintomáticos

“Muitas vezes é o doente que não faz a medicação, ou não a faz corretamente", alerta a pneumologista Paula Pinto. Várias entidades lançam campanha sobre o tema.

“Sabemos que mais de 50% dos doentes com DPOC estão medicados e mantêm-se sintomáticos”, sublinha a Prof.ª Paula Pinto, médica pneumologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia. “Muitas vezes é o próprio doente que não faz a medicação, ou não a faz corretamente, saltando tomas ou cometendo erros cruciais na técnica inalatória. Por outro lado, os próprios profissionais de saúde por vezes não sabem valorizar as queixas do doente”, frisa a especialista, “pois se o médico perguntar somente «Sente-se bem?», o doente vai responder sempre que sim”.

Porquê? O Prof. José Alves, presidente da Fundação Portuguesa de Pneumologia, explica que “estes doentes não reconhecem os sintomas, primeiro porque os querem negar, e, segundo, porque quando os doentes crónicos têm sintomas persistentes e contínuos ao longo do tempo, habituam-se e deixam de os valorizar”.

 

Prof. José Alves: “quando se usam métodos de controlo, chegamos quase sempre à conclusão de que os doentes se sentem bem, mas não estão verdadeiramente bem”

 

De facto, “quando se usam métodos de controlo, sejam da variação da função respiratória ou da avaliação dos sintomas, chegamos quase sempre à conclusão de que os doentes se sentem bem, mas não estão verdadeiramente bem. Portanto, existe a necessidade de reavaliar a qualidade de vida do doente a todo o momento”, alerta o médico pneumologista.

Segundo o painel de peritos envolvidos nesta campanha “Já perguntou ao seu doente com DPOC o que fez hoje?”, é preciso investigar regularmente a rotina do doente e fazer as perguntas certas para perceber se o doente está, de facto, controlado, ou se a sua qualidade de vida está aquém do que um tratamento efetivo e um estilo de vida ativo poderiam proporcionar.

 

Dr. Rui Costa: ” [Nós, médicos] ficamos muitas vezes por perguntas fechadas e demasiado genéricas”

Esta necessidade é sentida particularmente entre os médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF), que lidam com doentes com múltiplas comorbilidades, a somar ao tempo escasso da consulta. “Sentimos muitas vezes uma dificuldade na comunicação, pois o doente nem sempre partilha limitações da sua vida diária, que o tornam mais sedentário e com pior qualidade de vida, o que representa um maior risco de mortalidade, de descompensação da DPOC e de internamento, ao mesmo tempo que, nós, médicos, ficamos muitas vezes por perguntas fechadas e demasiado genéricas”, explica o Dr. Rui Costa, médico de MGF.

O especialista considera que “o médico de família tem de ser assertivo, fazer as perguntas certas ao doente, procurando saber se sente alguma dificuldade respiratória ou algum cansaço durante o dia, durante a noite ou nas suas atividades do dia-a-dia”. Na opinião do coordenador do GRESP da APMGF, “em poucos segundos, fazendo três questões simples, podemos avaliar o controlo da doença. Identificar um doente tratado que permanece sintomático, permite-nos ajudá-lo a melhorar essa sintomatologia e a viver melhor”.

O painel de peritos da campanha, após dois momentos de reunião, debate e definição de consensos, está a desenvolver um modelo de avaliação da qualidade de vida dos doentes com DPOC, que a curto prazo será apresentado, divulgado e distribuído aos profissionais da área.

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