Maioria dos utentes que recorre a médico de família no privado já tem clínico no SNS
Embora a perda de acesso a médico de família no SNS leve a um aumento do recurso ao privado, o efeito é moderado. A probabilidade estimada de recorrer ao setor privado é de 13,4% entre quem mantém médico no SNS, subindo para 18,7% quando esse acesso é perdido.

A maioria dos adultos que recorreu a consultas de médico de família no setor privado em 2025 já tinha médico atribuído no Serviço Nacional de Saúde (SNS), sendo a existência de seguro de saúde ou outra cobertura complementar o principal motivo para essa escolha, revela um estudo hoje divulgado. A análise foi desenvolvida pelos investigadores Carolina Santos e Pedro Pita Barros, da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), e conclui que 14,1% dos adultos recorreram no ano passado a médico de família no privado. Entre estes, cerca de 70% tinham já médico de família atribuído no SNS.
Segundo o estudo, intitulado “Médicos de Família no Setor Privado em Portugal: Ponto de Situação”, o principal fator que explica o recurso ao setor privado não é a ausência de médico de família no SNS, mas sim a existência de seguro de saúde privado ou outra forma de dupla cobertura. Os dados indicam que apenas 4,2% da população total recorre ao privado por não ter médico de família no SNS, enquanto cerca de 10% mantém simultaneamente acompanhamento no sistema público e no setor privado.
A análise mostra ainda que possuir seguro de saúde aumenta em cerca de 39 pontos percentuais a probabilidade de recorrer a médico de família no privado. Entre os beneficiários de subsistemas de saúde, esse efeito também é significativo: 24,5 pontos percentuais no conjunto dos subsistemas privados, 15,2 pontos percentuais no caso da ADSE e 10,8 pontos percentuais entre os beneficiários da ADM, que inclui PSP e GNR. Em contraste, não ter médico de família no SNS aumenta essa probabilidade apenas em 6,3 pontos percentuais, um impacto cerca de quatro vezes inferior ao associado ao seguro de saúde privado.
Embora a perda de acesso a médico de família no SNS leve a um aumento do recurso ao privado, o efeito é moderado. A probabilidade estimada de recorrer ao setor privado é de 13,4% entre quem mantém médico no SNS, subindo para 18,7% quando esse acesso é perdido. A nível regional, o Algarve e a Grande Lisboa apresentam as maiores taxas de recurso ao privado, com 19,3% e 16,8%, respetivamente. Seguem-se a Área Metropolitana do Porto, com 13,6%, e o Norte Litoral, com 11,5%. Os investigadores destacam ainda que regiões com elevada cobertura pública de médicos de família, como o Norte Litoral (94,6%) e a Área Metropolitana do Porto (93,1%), registam igualmente níveis relevantes de dupla utilização, com 10,9% e 12,6%, respetivamente, o que sugere que o recurso ao privado não resulta apenas de falhas na cobertura do SNS.
O estudo indica também que a probabilidade de adquirir seguro de saúde privado aumenta significativamente com o estatuto socioeconómico. Segundo os autores, este padrão mostra que o acesso ao setor privado depende fortemente das condições económicas, mesmo quando são considerados fatores como educação, profissão ou região de residência. Por outro lado, o estado de saúde autorreportado tem um impacto reduzido na decisão de recorrer ao privado, o que sugere que esta escolha está mais associada à cobertura financeira e aos recursos socioeconómicos do que a necessidades clínicas imediatas.
Os investigadores concluem que o crescimento do número de pessoas com seguro de saúde privado pode estar a criar um hábito de recorrer ao médico de família no setor privado, que não resulta sobretudo da falta de médicos de família no SNS. “Há, presumivelmente, um elemento de preferência das pessoas, cujo conhecimento mais detalhado deverá motivar trabalho de geração de conhecimento adicional”, defendem.
Para os autores, estes resultados indicam também que um eventual aumento da cobertura de médicos de família no SNS não deverá reduzir de forma significativa a atividade dos médicos de família no setor privado.
A análise foi desenvolvida no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE, e baseia-se em dados do Inquérito de Base ao Relatório de Acesso aos Cuidados de Saúde realizados em 2023 e 2025.
SO/LUSA
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