Interdisciplinaridade e casos reais marcam Jornadas Multidisciplinares de MGF
A partilha de experiências entre médicos de família e especialistas de várias áreas é um dos pilares das Jornadas Multidisciplinares de Medicina Geral e Familiar. Em entrevista, o médico de família Manuel Viana, um dos presidentes do evento, antecipa duas sessões do programa: Oncogeriatria e Hematologia de consultório.

Promover a colaboração entre especialidades e discutir problemas concretos da prática clínica é um dos objetivos centrais das Jornadas Multidisciplinares de Medicina Geral e Familiar, que se realizam de 19 a 21 de março, no Porto. Para Manuel Viana, copresidente do evento em conjunto com os médicos de família Rui Costa e Paulo Pessanha, esta lógica reflete a necessidade de uma “abordagem integrada do doente”.
“Temos de estar preparados para trabalhar em equipa. Trata-se da gestão integrada do doente crónico complexo”, afirma. Numa altura em que a informação está amplamente disponível, o médico sublinha a importância da troca de experiências entre profissionais de diferentes áreas. “Hoje em dia a teoria está toda acessível, porém não podemos dizer o mesmo desta partilha de experiência prática que fazemos questão de promover com a realização das jornadas.” Segundo acrescenta, é precisamente essa discussão de casos clínicos concretos que permite aproximar especialidades e melhorar a resposta aos doentes.
Programa diversificado e centrado na prática
Uma das sessões que Manuel Viana vai moderar é dedicada à Oncogeriatria, área cada vez mais relevante num contexto de envelhecimento da população e aumento da incidência de cancro. “A população idosa é cada vez mais numerosa e há também uma incidência cada vez maior de neoplasias, até mesmo em idades mais jovens”, refere.
Embora os tratamentos oncológicos sejam acompanhados pelos especialistas desta área, muitas das doenças associadas acabam por ser geridas nos cuidados de saúde primários. “As comorbilidades — as outras patologias — que na população idosa são cada vez mais prevalentes têm de ser geridas pelo médico de família, não pelo oncologista”, explica.
Entre os problemas mais frequentes está, por exemplo, a perda de massa muscular, muitas vezes associada aos tratamentos oncológicos. “Ao fazer quimioterapia, os doentes podem ficar mais debilitados, por exemplo com diminuição da força e da massa muscular desenvolvendo sarcopenia.” Nestas situações, acrescenta, as recomendações podem mesmo ser diferentes das habituais. “Quando o doente está a perder força e massa muscular, não é altura para dietas restritivas. É altura de reforçar o estado nutricional e promover o exercício físico para prevenir e mitigar a fragilidade e a sarcopenia e diminuir o risco de quedas e o médico de família deve orientar nesse sentido.”
Outra das sessões que Manuel Viana vai moderar é dedicada à Hematologia de consultório, centrada na interpretação de alterações frequentes no hemograma. Nesta edição, “o foco será a chamada série branca, incluindo neutropenia, linfopenia e linfocitose”.
O objetivo é ajudar os médicos de família a reconhecer sinais de alarme e perceber quando é necessário referenciar para Hematologia. “Trabalhamos sempre com casos clínicos exemplares, porque é assim que se aprende na prática”, refere.
Enquanto responsável pela organização científica do encontro, Manuel Viana destaca também o desafio de construir um programa relevante após várias edições. “Já vamos na 8.ª edição e tentamos variar os temas e ir buscar áreas pouco debatidas noutras reuniões médicas”, afirma.
O objetivo, acrescenta, é manter uma abordagem pragmática e centrada na prática clínica. “Há muitos campos da medicina em que não há guidelines e nós aprendemos uns com os outros”, conclui.
Sílvia Malheiro
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