Médico de família

INQUIETUDE | Ter vacinas mas sem capacidade de vacinação é inaceitável

A vacinação está a resultar muito bem ou ainda deixa dúvidas? Estamos com mais de 40% de pessoas vacinadas e temos menos infetados com o novo vírus. Não temos efeitos indesejáveis graves nem significativos. Podemos então admitir que a vacinação tem bons resultados. Estamos a meio do processo de vacinação com mais de quatro meses de evolução e não podemos demorar mais quatro meses para concluir esta campanha! Temos agora vacinas disponíveis e não temos capacidade instalada para vacinação maciça! É difícil de entender! É preocupante!

As vacinas anti SARS CoV-2 são a solução para a pandemia COVID-19, ou pelo menos a única que conhecemos hoje! O isolamento rigoroso dos doentes infetados, o distanciamento social, o uso de máscaras e a etiqueta respiratória são igualmente importantes, sem dúvida, mas todos desejamos voltar a uma vida normal e humana! Quando será possível reunir? E festejar com a família e os amigos? E participar nas actividades normais da comunidade? E assistir a um espectáculo? Será necessário massificar a vacinação para podermos evoluir no desconfinamento seguro. A vacinação de toda a população será a grande solução para ficarmos mais descansados. Quanto mais depressa vacinarmos, mais depressa veremos o início da resolução da pandemia. Ficar fechado em casa não é uma solução plausível e toda a gente está farta deste confinamento! Então vamos lá vacinar toda a gente rapidamente! Temos vacinas? Sim. E temos capacidade instalada para vacinar? Não.

O efeito da vacinação é cada vez mais evidente, tendo em conta a diminuição de pessoas infetadas com COVID-19, principalmente entre os mais idosos. Com a diminuição de formas graves da doença há menos óbitos e é mais evidente a utilidade das vacinas para esta doença. As pessoas estão a aderir e a aceitar a necessidade de vacinação e a assumir uma parte da solução do problema. De norte a sul, no litoral, no interior e nas ilhas, em todo o lado, a adesão das pessoas, mais velhos e menos velhos, doentes e não doentes, com maior ou menor risco, a adesão é indubitável. A vacina não é obrigatória nem poderia ser, mas é uma solução aceite e adotada por toda a gente de bom senso.

Os profissionais dos centros de saúde têm realizado um importante trabalho no cumprimento do Plano de Vacinação COVID-19. O esclarecimento de dúvidas, a marcação de dia e hora de vacinação, a resolução de imprevistos, a planificação dos trabalhos, assim como o auto agendamento e as correções dos erros, são tarefas novas e gigantescas que envolvem milhares de profissionais em centenas de locais adaptados para esta função. Com mais de quatro milhões de inoculações, vacinamos a um ritmo de 80 mil inoculações por dia em meados de maio. Em abril estávamos quase com 50 mil inoculações por dia e em março tínhamos cerca de 30 mil por dia. Esta evolução significa um aumento inequívoco, no entanto ainda fica muito aquém das necessidades! Temos que vacinar ainda mais pessoas por dia. É necessário mais espaço, mais recursos, mais meios para conseguirmos ser ainda mais rápidos.

A indisponibilidade de vacinas em quantidade suficiente foi a principal razão da morosidade do processo de vacinação no primeiro trimestre deste ano, um problema de todo o mundo. Mas agora temos vacinas entregues a um ritmo maior do que a capacidade de vacinar. A diferença entre as vacinas recebidas e inoculadas em maio é superior a 500 mil por semana! Em março tínhamos pouco mais de 200 mil vacinas em espera por semana. Como é que podemos aumentar a capacidade de vacinar com o dispositivo instalado? Com as vacinas agora disponíveis teremos os centros de vacinação suficientes?

Para aumentarmos a capacidade de vacinação parece óbvio evoluir em três áreas: simplificar procedimentos mantendo a segurança; aumentar os recursos materiais e humanos disponíveis; aumentar o número de centros de vacinação. Para conseguirmos vacinar 100 mil pessoas por dia teremos que fazer um enorme esforço de organização, planificação, desconcentração e mobilização de recursos. Mas é possível! Se tivermos as ARS disponíveis, com a colaboração das autarquias e com a mobilização de mais recursos humanos, será possível evoluir e aumentar a rapidez de vacinação em massa. Temos vacinas mas esgotamos a capacidade de vacinação. É inaceitável. Temos que vacinar mais e depressa!

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