Médico de família

INQUIETUDE | É perigoso iludir os jovens e as famílias com promessas de formação médica simplificada

Pensar em formar médicos de forma aligeirada ou simplificada carece de honestidade política! A falta de médicos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) já não é suportável hoje! Espera-se que o Governo procure a solução política do problema.

As recentes declarações do senhor Ministro Manuel Heitor ao Diário de Notícias, a propósito da formação dos médicos de família, são chocantes e incorretas. Pensar em formar médicos de forma aligeirada ou simplificada carece de honestidade política. De um Ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior espera-se que mande averiguar os temas que não domina de modo a evitar erros desnecessários e declarações políticas intempestivas e ofensivas, como as que foram dirigidas aos médicos de família e à sua formação profissional.

O Senhor Ministro não sabe que não temos falta de médicos em Portugal. O que temos é falta de médicos no SNS por falta de condições de trabalho, por falta de contratações, por falta de investimento durante anos consecutivos, por mau planeamento, por péssimas opções de políticas de gestão de recursos humanos.

O Senhor Ministro não sabe que os médicos de família trabalham na primeira linha de atendimento do sistema de saúde e são essenciais para o SNS, como aliás tem ficado bem demonstrado na pandemia que atualmente vivemos, com o evidente reconhecimento das comunidades que servimos. Os médicos de família em exercício nos centros de saúde do SNS fazem mais de 30 milhões de consultas por ano.

O Senhor Ministro não sabe que a formação médica vai muito para além da formação pré-graduada da sua responsabilidade política. Formar médicos é um processo inevitavelmente complexo que envolve uma vastíssima equipa, unidades de saúde idóneas e uma sólida estrutura no Ministério da Saúde com décadas de experiência e provas dadas.

O Senhor Ministro não sabe que temos excesso de alunos nos cursos de Medicina e que os recursos disponíveis são insuficientes para acolher o exagerado número de alunos nas escolas médicas. Mas se ainda assim o Ministério que dirige canalizasse investimento para as escolas médicas; se ainda assim encontrasse condições estruturais inovadoras; se ainda assim criasse novas escolas médicas; se ainda assim aumentasse o número de ingressos em cada ano, ainda assim ficaríamos com a missão impossível de levar a cabo a formação pós-graduada dos mestres saídos das escolas médicas. Não temos nem poderemos ter mais capacidade formativa do que aquela que já temos disponível, garantindo a idoneidade indispensável. O esforço que desde há anos é feito por médicos formandos e médicos formadores, com a compreensão e gratidão dos doentes, tem sido notável e apenas suportável dado o sentido humanista e ético que nos caracteriza. Mas mesmo que se reunissem esforços e recursos para aumentar a capacidade das escolas médicas e a capacidade das unidades de saúde para garantir a formação dos médicos nas diferentes especialidades, a solução apenas seria visível e sentida daqui a 12 a 15 anos. Ora a falta de médicos no SNS já não é suportável hoje! As soluções têm que ser encontradas hoje e agora, desde que não perturbem a qualidade da prestação dos cuidados de saúde, seja em que especialidade for.

O Senhor Ministro deve compreender que é difícil fazer formação pós-graduada se tivermos cada vez mais unidades de saúde deficitárias.

Respeitosamente, espera-se que o Governo procure a solução política do problema da falta de médicos de família e que evite a todo o custo atitudes populistas e inconsequentes, iludindo os jovens estudantes e as suas famílias. Com ingratidão, incompreensão e inadequação foi lançando a confusão e agravou-se o problema. Manter-nos-emos do lado da solução, na defesa dos cuidados de saúde dignos que as pessoas merecem e na promoção da melhor formação médica que nos garanta a segurança do exercício profissional e a dignidade do ato médico.

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