Inquérito SPAVC. Menos 25 a 50% de doentes com AVC admitidos em hospitais

Dados referentes a inquérito a 32 hospitais portugueses. “Deve ser reforçado que AVC é emergência aguda”, diz presidente da SPAVC, que lança campanha no combate ao sedentarismo.

Já restam poucas dúvidas de que a pandemia provocada pelo SARS-CoV-2 resulta no agravamento do quadro clínico de muitos doentes afetados por outras patologias que, face às restrições circunstanciais impostas aos sistemas de saúde ou ao seu próprio receio de procurar apoio clínico, veem limitado o acesso a cuidados atempados. Um recente inquérito da Sociedade Portuguesa do AVC (SPAVC) que envolveu 32 hospitais portugueses revelou que metade viu o número de doentes com AVC admitidos reduzir-se entre 25 a 50%.

“Os números são, para nós, preocupantes e precisamos de garantir que os doentes estão informados para continuar a otimizar a qualidade de tratamento em todas as unidades de AVC existentes. O tempo de chegada ao hospital é fulcral para o sucesso do tratamento e há equipas preparadas para tratar os doentes, num circuito protegido e paralelo ao dos doentes infetados por Covid-19”, destaca o neurologista Prof. Dr. José Castro Lopes.

Neste cenário complexo, o presidente da SPAVC sublinha ainda que as doenças cerebrovasculares não podem ficar em stand-by: “a Covid-19 tem tido um impacto negativo sério nas taxas de incapacidade e mortalidade provocadas por AVC em Portugal, uma vez que os doentes evitam procurar o hospital para tratamento, devido ao receio da infeção por coronavírus.

Deve ser reforçado, junto da população, que o AVC é uma emergência aguda, ao invés da infeção por Covid-19, que deve ser encarada como «apenas» urgente. Neste âmbito, cabe-nos a nós e à comunicação social informar o público que, perante um dos sinais de alerta de AVC, deve ligar de imediato o 112, lembrando que o tempo de chegada ao hospital é fulcral para o sucesso do tratamento”.

No que concerne ao atendimento dos doentes nas unidades hospitalares, o Prof. Dr. José Castro Lopes constata que “os procedimentos diagnósticos e intervenções terapêuticas têm sido sempre assegurados nesta altura pandémica, embora com as devidas reformulações da abordagem hospitalar por forma a assegurar a resposta do doente com suspeita de AVC agudo, por um lado, e protegendo os doentes não infetados e os profissionais de saúde, por outro”.

São os doentes em fase de reabilitação que têm encontrando maiores dificuldades, por causa da reorganização de serviços, elucida o neurologista: “a reabilitação pós-AVC foi a abordagem mais afetada, verificando-se a descontinuação de alguns programas ou a menor disponibilidade para novos doentes. Neste âmbito, deve ser reforçada a necessidade de desenvolver estratégias comunitárias que permitam o necessário e urgente retorno à reabilitação”.

 

Inovação terapêutica suscita esperança, mas é necessário trabalhar a literacia em saúde

Se o contexto nacional do AVC não é ainda mais negro no presente, em termos de mortalidade e morbilidade, tal deve-se em muito à crescente acessibilidade dos doentes a unidades e equipas de saúde hospitalares especializadas e ao desenvolvimento, nas últimas décadas, de protocolos terapêuticos para a fase aguda caracterizados por grande eficácia.

“Como é sabido, dispomos hoje de tratamentos inovadores de fase aguda, como a trombólise farmacológica e a trombectomia mecânica, que aumentam as taxas de sobrevivência e reduzem a incapacidade por restabelecerem a circulação interrompida (causa do AVC), e que serão tanto mais eficazes quanto mais cedo forem administrados. Assim, os avanços científicos nesta área e a excelência dos especialistas nacionais dedicados ao tratamento do AVC (como comprovam as múltiplas certificações e distinções internacionais atribuídas) permitem uma melhoria progressiva no panorama desta patologia. A iliteracia da população geral e o não-controlo dos fatores de risco cerebral representam os principais entraves atuais no combate ao AVC no nosso país”, destaca todavia o Prof. Dr. José Castro Lopes.

Para o neurologista, é sobretudo fundamental insistir numa estratégia alargada de informação que permita aos portugueses estarem atentos a alterações que, de outra forma, poderiam ser negligenciadas: “a população deve estar informada sobre os sinais de alerta de AVC e saber que, perante o aparecimento de um deles, a única atitude correta é a de acionar de imediato os serviços de emergência, através do 112. A Via Verde do AVC está organizada em Portugal para encaminhar os doentes rapidamente para os hospitais capazes de fornecer os tratamentos adequados”.

Destacando o facto de o AVC continuar a ser a principal causa de morte e incapacidade permanente no nosso país – “por hora, três portugueses são vítimas de um AVC. Destes, um deles não sobreviverá e, dos restantes, um ficará com sequelas incapacitantes” -, o Prof. Dr. José Castro Lopes sublinha que, “enquanto não conseguirmos contrariar esta realidade, continua a ser fundamental consciencializar a população para esta patologia”.

Nesse sentido, realça como a SPAVC tem feito um esforço assinalável para mobilizar a população, apostando na sensibilização e no aumento da literacia em saúde, especificamente no que toca ao AVC – fatores de risco, sinais de alerta e medidas preventivas”. Neste ano, no âmbito do Dia Mundial do AVC, a 29 de outubro, a SPAVC associa-se à campanha da World Stroke Organization (WSO) «Junte-se ao movimento para prevenir o AVC» para apelar à quebra do sedentarismo dos cidadãos através da dança. “A prática de exercício físico é a atividade mais simples e de eficácia comprovada na prevenção do aparecimento dos fatores de risco cerebral, no seu controlo e na prevenção primária e secundária do AVC, daí a sua relevância”, assegura o Prof. Dr. José Castro Lopes.

De acordo com dados do “Atlas da Doença Cardíaca e AVC”, publicado pela Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e pela Organização Mundial da Saúde, o AVC afeta aproximadamente 15 milhões de pessoas por ano à escala global, sendo que cerca de cinco milhões perdem a vida e outros cinco milhões acabam por ficar com incapacidade permanente. As duas organizações relembram ainda que a incidência do AVC tem vindo a decrescer na maioria dos países desenvolvidos, em grande medida devido a um melhor controlo da pressão arterial e do consumo de tabaco, ainda que esta tendência seja contrariada pelo rápido envelhecimento populacional verificado nestas sociedades.

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