30 Ago, 2024

“Hoje em dia qualquer pessoa adquire suplementos sem saber muito bem o porquê da sua toma”

Em entrevista, Liliana Natário, nutricionista no Hospital da Luz, fala sobre a relativização dos suplementos alimentares. A especialista em Nutrição Funcional salienta a importância de que a suplementação deve ser orientada por um profissional, caso contrário, a sobredosagem e/ou a interação entre medicamentos podem provocar efeitos prejudiciais à saúde das pessoas.

“Hoje em dia qualquer pessoa adquire suplementos sem saber muito bem o porquê da sua toma”

Em que situações a suplementação alimentar é realmente necessária?

Após análises clínicas, caso a pessoa não se esteja a alimentar de acordo com as suas necessidades, ou devido a questões patológicas, existe uma possibilidade de desenvolver carências. Nestas situações, pode ser benéfico a introdução de uma terapêutica com suplementos.

Enumerando alguns exemplos, existem casos de disbiose intestional; necessidades específicas aumentadas, como durante o período de gestação; ou polimorfismos genéticos. Há ainda alterações da função da tiroide; doenças inflamatórias intestinais; após cirurgia bariátrica; ou, em alguns contextos, durante a menstruação.

 

Regra geral, quais são os nutrientes mais comummente deficientes na dieta da população portuguesa?

Uma situação muito frequente é a carência de vitamina D. Esta é um cofator em várias reações do nosso organismo, nomeadamente ao nível da função da saúde óssea, da saúde da mulher e da função tiroideia. Se não suprimirmos as necessidades desta vitamina, colocamos em causa a saúde. Idealmente, os níveis ótimos de vitamina D devem ser de 50 ng/mL. Acontece que, atualmente, a maioria da pessoas (e arrisco-me mesmo a dizer 90% da população), tem os seus valores abaixo de 30 ng/mL.

Por outro lado, nas mulheres em idade fértil ocorrem frequentemente carências ao nível do ferro, do ácido fólico e/ou da vitamina B12.

Outro ponto muito comum na população portuguesa é a baixa ingestão de peixe, nomeadamente de peixes gordos. Devido a este facto, existem muitos défices de ómega 3, que tem uma ação anti-inflamatória na prevenção das doenças cardiovasculares e na função cerebral em geral, pelo que, em consulta, quando é detetada uma destas situações é efetivamente necessário introduzir suplementação.

 

Quais são os principais riscos de iniciar suplementação sem a orientação de um especialista?

Suplementar sem necessidade tanto pode ter um impacto nulo, como muito nefasto. Por um lado, de facto, existe suplementação que é eliminada via renal. Temos o exemplo das vitaminas hidrossolúveis, nomeadamente as do complexo B e C, o que pode não ter qualquer consequência.

Porém, esta ação pode ter um impacto muito prejudicial quando, em vez de ser eliminada, a suplementação é acumulada nos tecidos. Além disso, suplementar sem orientação pode realmente ser perigoso numa situação de carência, em que se introduz um produto sem qualidade, que pode pôr em causa a vida da pessoa.

É também de extrema importância perceber a qualidade dos suplementos. Existem produtos disponíveis em venda livre sem qualidade e, infelizmente, a legislação para a preparação e comercialização de matérias-primas ainda é muito reduzida. Se não conhecemos os suplementos na sua totalidade, obviamente que vai haver riscos de sobredosagem.

Comparativamente com há 15 anos, em que se notava algum receio na população, hoje em dia qualquer pessoa os adquire em venda livre, sem saber muito bem o porquê da sua toma.

“Um dos mitos mais comuns que ouço em consulta é que os suplementos são naturais e que por isso não causam qualquer dano.”

No campo desportivo, quais são os riscos associados ao uso de suplementos pré-treino e diuréticos?

Os suplementos pré-treino contêm estimulantes que podem promover ansiedade, interferências no padrão de sono, aumento da tensão arterial e uma falsa sensação de força, que pode levar a um risco de lesão.

Relativamente aos diuréticos, estes promovem o risco de hemodiluição dos eletrólitos e, portanto, podem levar a desidratação, a incapacidade na concentração muscular, a hipertensão, a síncope ou até mesmo a agravamento da capacidade de contração muscular.

Assim sendo, este tipo de suplementos também deve ser aconselhado por um profissional com formação na área.

 

Por que razão o excesso de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) é particularmente perigoso?

As vitaminas lipossolúveis não são eliminadas, sendo armazenadas no fígado e no tecido adiposo. Quando consumidas em excesso, podem causar vários danos, nomeadamente ao nível dos órgãos. Além disso, podem surgir distúrbios metabólicos, uma vez que o desequilíbrio provocado por hipervitaminados pode interferir no metabolismo normal do corpo, levando mesmo a hipercalemia.

O excesso de vitamina D, por exemplo, é muito preocupante em toda a população, mas especialmente nos casos de pessoas em idade geriátrica, devido à excessiva acumulação de cálcio. Nesta população em específico, que é, na maioria das vezes, polimedicada, pode não haver absorção medicamentosa. Além disso, este excesso de suplementação pode verificar-se a nível da absorção de vitaminas e minerais e criar um desequilíbrio no organismo.

“Quando estão em excesso, as vitaminas competem umas com as outras e não acontecem determinadas reações.”

 

De que forma pode a suplementação interagir com medicamentos prescritos e agravar condições de saúde existentes?

Um exemplo muito comum é o do ginseng, que pode ser responsável pela redução do anticoagulante varfarina, um medicamento muito utilizado na população idosa, ao aumentar o risco de tromboses.

Outro caso é o do ginkgo biloba, presente em suplementos frequentemente aconselhados também a uma população mais envelhecida. Caso interaja com a aspirina ou a varfarina, existe risco de hemorragia.

A erva de São João, ou hipericão, normalmente utilizada em estados de depressão ligeira a moderada, em casos de ansiedade ou na condição obsessivo-compulsiva, também é algo a considerar. Existem medicamentos metabolizados pela mesma via deste suplemento, como é o caso do citocromo P450. Nestes casos, os compostos vão competir e a medicação não vai atuar da forma que deveria.

 

 

CG

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