Hipotecámos a saúde

Lucas Chambel

Lucas Chambel

Dirigente Associativo e Estudante de Ciências Farmacêuticas

Fomos diretamente para a crise, sem passar pela casa de partida.

Como em qualquer jogo de monopólio, quem tem o poder de decisão irá sempre refugiar-se na dicotomia azar ou sorte, sejam eles os que apregoam o milagre português ou os que usam repetidamente “bodes expiatórios” para justificar desaires dos números.

Assistimos a um país, pequeno que se diga, a dois ou mesmo três compassos, tratámos alhos como bugalhos e acabámos por cometer o erro de passar a imagem de que a tormenta já tinha passado.

Uma saúde em espera

Dizem os otimistas crónicos, que o nosso SNS mostrou ser completamente sólido e não necessitar de nada nem ninguém para estar lá quando vivíamos o stress dos picos e não picos. Diga-se de passagem, que considero que o SNS tem efetivamente mostrado um valor incalculável, mas afirmar que o SNS saiu por cima, é ignorar levianamente os 30% de consultas que ficaram por fazer e os milhares de rastreios que não se realizaram. Se alguma lição levaremos desta pandemia, é que parar o SNS irá ter um impacto brutal nos mais diversos indicadores de saúde pública. Virar as costas ao privado, por ideologias políticas, é rejeitar a possibilidade de convivência dos dois setores em prol de um bem muito maior, a saúde dos portugueses.

Os “bodes expiatórios”

O jogo até estava a correr bem, os peões de São Bento e Belém uniram esforços para mostrar aos portugueses que estavam na mó de cima. De repente, quando tudo parecia controlado, o acumular da falta de preparação do Ministério da Saúde, aliado à fraca capacidade organizacional dos sistemas de informação de saúde para referenciação, isolamento e controlo dos casos suspeitos e positivos, fizeram com que o caos se instalasse na região de Lisboa e Vale do Tejo, num volte-face que facilmente será tão contagiante como o vírus em si.

Numa altura onde a estratégia era pouca e lançados os dados, a sorte acabou por não sorrir aos representantes do nosso país. Tentando contornar a culpa inerente (o assumir de responsabilidades nunca foi um dote deste governo), começaram-se a culpar os jovens como os causadores de todos os males. Os especialistas vieram dizer “não é bem assim”.

Agora a “novela” evolui, os culpados não são aqueles que lançam os dados, mas sim os técnicos que são incapazes de dar resposta aos anseios do primeiro-ministro. As bases vão caindo para que o topo continue imune a qualquer crítica.

Soluções utópicas

Não existe, como sabemos, uma fórmula mágica de resolução dos problemas sanitários, económicos e sociais que o país atravessa. O país já está farto das promessas ou dos epidemiologistas de bancada. Enchamos os discursos com mais coerência e menos desresponsabilização. Os portugueses necessitam de mensagens claras e honestas, ou os jovens e os menos jovens continuaram a sair enquanto os exemplos forem ambíguos e irresponsáveis.

Temos todos de entender que sim, por vezes é normal os governantes falharem, e não podemos cair no erro de tentar encontrar culpados para tudo o que corre menos bem, temos de ser melhores do que isso. O pior que nos pode acontecer é perder-se o respeito e reconhecimento pelas autoridades de saúde, pois entraremos numa anarquia de treinadores de bancada, onde cada um vai definir as suas regras.

Em suma, o país terá de se reconstruir pelas bases. Precisamos de uma sociedade comprometida em colocar tijolo por tijolo, para que unificados não percamos o objetivo final do jogo – voltar à casa partida.

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