Desde janeiro de 2014, quando este indicador começou a ser medido, nunca se tinham registado tantos dias de ausências por parte de profissionais do SNS num único mês. Segundo os dados do Portal da Transparência do SNS, citados pelo jornal Público, perderam-se 598.293 dias de trabalho em maio.

Quase 60% do total de dias de ausência são justificados por motivo de doença. Cerca de 30% por proteção na parentalidade. Há ainda outros cerca de 6% que são justificados por acidente de serviço ou doença profissional. Os restantes 3% invocam motivos de vária ordem, como assistência a familiares, greve, falecimento de familiar, casamento, entre outros.

A pandemia pode ajudar a explicar o aumento vertiginoso de faltas em maio, mas também nos meses de abril e junho. “Há imensos profissionais de saúde infetados. É preciso ter a noção de que Maio foi provavelmente o mês em que as pessoas atingiram o pico de exaustão. Os profissionais de saúde estiveram disponíveis para trabalhar 24 horas, mas a adrenalina funciona no início, depois começa a ter efeitos negativos”, diz, ao Público, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães.

Já em abril, quando o número de internamentos e de casos registados atingiram o pico, o número de dias por ausência no SNS foi de 538.178 e em junho ultrapassou os 546 mil. Para se ter uma ideia da dimensão destes números, basta referir que o anterior recorde de dias de ausência tinha sido fixado em novembro de 2018, com pouco mais de 392 mil dias perdidos. Agora, um profissional de saúde infetado com Covid-19 pode ter de ficar mais de um mês em casa, até que o teste dê negativo, antes de poder voltar ao trabalho.

 

Número de médicos no SNS caiu entre fevereiro e junho

 

A agravar a situação está a demora em reforçar os recursos humanos, principalmente no que diz respeito a médicos. Apesar do anúncio da entrada de mais profissionais feito pelo Ministério da Saúde, verifica-se, pelo contrário, uma diminuição no número de contratos para médicos, internos e técnicos superiores de saúde entre fevereiro e junho. Os médicos registaram uma descida na ordem dos 0,53% (são agora 19500), os internos de 1,94% (para 10564), e os técnicos superiores de saúde de 0,23% (para 8827), segundo dados do Portal da Transparência.

Contudo, o Ministério da Saúde diz que a evolução é enganadora, uma vez ainda “não foi possível abrir os concursos para recrutamento dos médicos recém-especialistas”. Isto deve-se ao atraso na conclusão das avaliações finais, provocado pela pandemia.

Ainda assim, há especialistas no mercado que continuam a poder ser contratados e que, “muitas vezes”, o Estado perde “para outras instituições de saúde que não públicas e até para o estrangeiro”, admite o Ricardo Mexia, o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública.

TC/SO

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