15 Out, 2021

“Existem mitos relacionados com todos os métodos contracetivos”

À SaúdeNotícias, a presidente da Sociedade Portuguesa de Contraceção, destacou a importância da desmistificação de crenças que têm sido perpetuadas relativamente ao uso de alguns métodos contracetivos.

Nos dias 24 e 25 de outubro realizou- -se a 10.ª Reunião Anual da Sociedade Portuguesa de Contraceção (SPC). Além do regresso ao presencial, o que marcou o evento que recebeu mais de 300 profissionais de saúde?

Dentro dos nossos principais objetivos, procurámos continuar a estreitar parcerias com os profissionais que trabalham na área da saúde sexual e reprodutiva, no sentido de melhorar alguns aspetos que se agravaram durante a pandemia, especificamente no que diz respeito aos cuidados de saúde primários. Por outro lado, também ambicionámos transmitir novos conhecimentos e comunicar novos trabalhos que contribuem para a melhoria do aconselhamento e para a desmitificação de alguns mitos, nomeadamente os que estão associados à resistência da utilização de métodos hormonais.

Acredita que existem muitos mitos no que diz respeito à contraceção de longa duração?

Existem mitos relacionados com todos os métodos contracetivos. Estes vão sempre surgindo há medida que o seu uso aumenta, no sentido em que as pessoas acabam sempre por desenvolver algumas ‘resistências’. Em relação à contraceção de longa duração, um dos métodos mais utilizados em Portugal é o implante. Infelizmente, há muitos mitos relacionados com o aumento do peso e uma certa preocupação associada ao facto de que a menstruação pode ser irregular, uma vez que as mulheres podem perder sangue em pouca quantidade e não no período que esperavam. Do mesmo modo, as pessoas também têm muito receio associado à sua colocação, mas é importante referir que é utilizada anestesia local nesse processo. Acredito que, para a colocação do implante, é necessário um aconselhamento prévio, de forma a que as utentes percebam que as alterações do ciclo menstrual são normais, que não está provado que haja um aumento significativo do peso, que não menstruar não significa que estão grávidas e que isso não traz nenhum problema. Também no que diz respeito aos dispositivos intrauterinos, quer os de cobre ou os progestativos, existe sempre uma certa resistência à sua colocação. As pessoas acreditam que ficam com um objeto estranho no seu corpo e que vão senti- -lo. A verdade é que a colocação pode trazer, realmente, um ligeiro incómodo, mas este é muito ligeiro, pelo qual não se justifica o uso de qualquer tipo de anestesia. É ainda importante reforçar que o dispositivo não incomoda, é realmente muito pequeno. Depois, ressalvar que não existe perigo de desenvolvimento de infeções ou de situações de infertilidade.

De que modo se podem esclarecer as mulheres portugueses relativamente ao uso destes métodos contracetivos?

Em primeiro lugar, é sempre necessário promover informação e formação. Para a população em geral, é necessário que os meios de comunicação social, sobretudo no digital, produzam informação fidedigna e que não alimente estas crenças que têm sido perpetuadas. Depois, é fundamental insistir na formação dos técnicos de saúde desde a faculdade até à pós-graduação, quer ao nível da Ginecologia, quer dos cuidados de saúde primários, uma vez que aí decorrem as consultas de planeamento familiar. Se os médicos tiverem algumas atitudes erradas – porque também têm as suas crenças – acabam por não veicular o aconselhamento correto às suas utentes.

Como presidente da SPC, qual é a sua principal preocupação no que diz respeito ao uso dos métodos contracetivos a nível nacional?

Acima de tudo, a saúde sexual dos adolescentes e os jovens, uma vez que estes não são bons utilizadores dos serviços de saúde e também são aqueles que utilizam métodos contracetivos menos eficazes. Apesar de Portugal ser o país que mais utiliza a pílula, dos 15 aos 19 anos o preservativo é o método mais utilizado e é realmente o único que protege das infeções de transmissão sexual. O problema é que a sua utilização não é consistente, ou seja, este grupo etário nem sempre o utiliza. Para piorar a situação, os adolescentes têm muitas dificuldades no acesso aos serviços de saúde, no sentido em que existem poucos centros de atendimento para este grupo etário.

 

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