Estudo defende vacina contra vírus sincicial para reduzir mortes em maiores de 60 anos
Um estudo realizado com cerca de 15 mil doentes internados na ULS de Entre Douro e Vouga defende a vacinação contra o Vírus Sincicial Respiratório nos maiores de 60 anos. Entre os 345 doentes diagnosticados com a infeção, mais de metade desenvolveu falência respiratória e 18,3% morreu durante o internamento.

Um estudo realizado com cerca de 15 mil doentes internados na Unidade Local de Saúde de Entre Douro e Vouga (ULS EDV) defende a vacinação contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) nos maiores de 60 anos, depois de concluir que quase um em cada cinco adultos hospitalizados com a infeção morreu durante o internamento.
A investigação, conduzida pelo médico internista Gonçalo Sarmento, será apresentada na quinta-feira, em Coimbra, e analisou dados recolhidos entre 2018 e 2024 na ULS EDV, no que o investigador descreve como “uma das maiores iniciativas de investigação em contexto de vida real alguma vez realizadas em Portugal sobre o impacto do Vírus Sincicial Respiratório (VSR) na população adulta”.
Em declarações à Lusa, Gonçalo Sarmento recordou que a vacinação contra o vírus já integra o Plano Nacional de Vacinação, sendo disponibilizada gratuitamente aos bebés, e defendeu que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) deve passar a comparticipá-la também nos adultos.
O objetivo, explicou, é reduzir o risco de falência respiratória entre a população sénior, sobretudo nas pessoas mais vulneráveis e sem capacidade financeira para adquirir a vacina, que custa cerca de 200 euros e tem uma eficácia reconhecida de pelo menos três anos.
“Não é qualquer idoso que tem dinheiro para isso”, alertou Gonçalo Sarmento.
“Mas se o SNS passar a comparticipar a vacina, será um passo determinante para garantir mais longevidade à nossa população sénior, que, quando é infetada por este vírus, está sujeita a insuficiência respiratória aguda, lesões pulmonares que podem deixar sequelas e uma inflamação que aumenta a probabilidade de a doença crónica ficar descompensada ou até motivar enfartes ou AVC”, acrescentou.
Entre os cerca de 15 mil utentes internados na ULS EDV devido a infeções respiratórias agudas, o VSR foi identificado em 345.
Destes doentes, mais de 90% tinham mais de 60 anos e quase 80% pertenciam a grupos de risco elevado devido à presença de doenças crónicas, aumentando a probabilidade de desenvolverem complicações graves.
Mais de metade dos 345 doentes diagnosticados com VSR desenvolveu falência respiratória e 18,3% morreu durante o internamento, o que significa que “quase um em cada cinco adultos hospitalizados com o vírus não sobreviveu”.
Gonçalo Sarmento admitiu que, na generalidade do país, “ainda há tendência para o Vírus Sincicial Respiratório ser mal diagnosticado”, devido à semelhança dos sintomas com os da gripe.
No entanto, salientou que “o estudo demonstrou que os doentes hospitalizados com o VSR registaram uma maior frequência de complicações graves do que os utentes internados com gripe”.
A falência respiratória ocorreu em 60,3% dos casos de VSR, comparativamente com 35,1% nos doentes com gripe, enquanto as taxas de infeção bacteriana foram de 54,8% nos doentes com VSR e de 34,2% nos casos de gripe.
Os acidentes vasculares foram registados em 47,7% dos casos de VSR, face a 28,1% nos doentes com gripe, e a doença renal aguda afetou 40,3% dos doentes com VSR, comparativamente com 24,6% dos que tinham gripe.
A mortalidade intra-hospitalar foi igualmente superior entre os doentes com VSR, atingindo 18,3%, enquanto nos casos de gripe se situou nos 15,8%.
Segundo Gonçalo Sarmento, o estudo constitui também “o primeiro retrato do impacto clínico do VSR na região” abrangida pela ULS EDV, que inclui os concelhos de Santa Maria da Feira, Arouca, Oliveira de Azeméis, Ovar, São João da Madeira e Vale de Cambra.
“É um território com grande atividade industrial e com tradição de problemas respiratórios associados a trabalhos como a antiga exploração mineira e, na atualidade, a transformação de cortiça, o manuseamento de colas para calçado e a metalurgia”, afirmou.
Para o especialista em Medicina Interna, os resultados mostram que o VSR representa “uma ameaça muito relevante para os adultos mais vulneráveis e uma infeção frequentemente subvalorizada, que provoca complicações graves, uma elevada mortalidade e uma pressão significativa sobre os serviços de saúde”.
O vírus apresenta ainda um padrão sazonal marcado, concentrando-se no outono e no inverno, período em que os hospitais do SNS enfrentam também maior pressão associada à gripe e à covid-19.
“Tendo em conta o envelhecimento acelerado da população portuguesa, podemos antecipar que a predominância do Vírus Sincicial vai aumentar nos próximos anos, pelo que é decisivo reconhecer o risco associado a esta doença e, porque não há tratamento específico para ela, adotar estratégias preventivas dirigidas aos grupos mais vulneráveis, como a vacinação comparticipada para maiores de 60 anos”, concluiu Gonçalo Sarmento.
LUSA/SO
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