Equipas de Urgência Sem Internos de Especialidade
Entramos em setembro, e as notícias do tempo de espera para o atendimento nas Urgências abrem os telejornais. Ainda está demasiado calor, e esta vergonha, tantas vezes repetida, aumenta-nos a sensação de tédio. Parece comida requentada, que o jornalista está obrigado a servir, sem a esperança de que venham dias melhores. A Ministra da Saúde, deixou de propalar resoluções rápidas dos problemas. Com ar cansado, limita-se a constatar o óbvio, em que os “amarelos” aguardam mais de seis horas para serem vistos e os “laranjas” são observados em duas horas, quando não deviam esperar mais do que uma hora ou 10 minutos, respetivamente. É porque faltam Médicos, mais numas regiões do que noutras, diz ela conformada, sem se abalançar com uma única ideia, que faça inverter a tendência. Acrescenta ser previsível o agravamento desta situação. Não tenhamos ilusões.
A carência de Médicos Especialistas ou Tarefeiros nos Serviços de Urgência, tem múltiplas causas, a maior parte delas bem antigas, que nunca ninguém quis resolver. Mas, o que é um problema mais novo, que ostensivamente é esquecido, é a drástica redução de Internos de Especialidade nas Equipas, cujo trabalho sempre foi muito importante nos Hospitais Centrais.
Deixei de fazer Urgência há quatro anos, quando completei os 62, com a experiência acumulada de 36 anos, sempre na linha da frente, mesmo nos últimos 14 anos como Chefe de Equipa. Soçobrei às mudanças no Serviço de Urgência introduzidas pela Covid-19, que me tiraram o controlo do fluxo dos doentes de que tanto gostava, e à insistência da família, farta das minhas ausências de fim-de-semana. Mas, confesso que tenho saudades da adrenalina do diagnóstico rápido no doente grave, da surpresa da patologia rara, do retorno à vida do moribundo e da sensação do trabalho realizado ter feito a diferença, no final do turno.
Aos alunos do Curso de Medicina, continuo a dizer que a Urgência é uma grande escola de formação do conhecimento, e o tempo curto que temos para a decisão, é um verdadeiro ginásio do raciocínio clínico. O Serviço de Urgência é uma escola de formação contínua para qualquer médico, seja qual for a sua especialidade ou estadio na carreira.
Não quero deixar a impressão de que trabalhar na Urgência traz benefícios sem dor. Para fazer com competência um turno de 12h no Serviço de Urgência, é preciso resistência física e mental. O ambiente é hostil, com maus cheiros, luzes fosforescentes, alarmes constantes e gritos de sofrimento. As reclamações em voz alta também fazem parte, habitualmente dos doentes menos graves, que têm força para as fazer. É um trabalho pouco reconhecido, em que muitas vezes o doente não chega a ter consciência da atitude médica que o salvou.
Na opinião de muitos entendidos, a causa de ficarem vazias cerca de 50% das vagas de especialidade de Medicina Interna (MI), deve-se ao esforço sobre-humano do Serviço de Urgência. Os Internos de Formação Específica de MI (IFE), fazem SU durante os 5 anos da sua formação.
Os IFE das outras especialidades médicas, que antes faziam Urgência na Equipa Médica durante dois a quatro anos, passaram a manter-se no SU Geral apenas um ano, pela cedência progressiva à pressão dos Colégios de Especialidade da Ordem dos Médicos. O argumento é o da necessidade da formação da sua especialidade de órgão durante quatro anos. Na Alemanha e noutros Países Europeus, que têm três anos de “tronco comum”, bastam-lhes dois anos de formação da sua área específica para se tornarem especialistas. Por isso, estou convicto que os querem retirar da Urgência Geral ao fim dum ano, para que não deixem de escolher a especialidade, pela má fama do SU. Há que os proteger daquele inferno.
A conjunção destes factos, a redução das entradas de IFE de MI e a saída precoce dos IFE doutras especialidades da Urgência Geral, concorre para a diminuição brutal de Médicos para o atendimento nos balcões do SU. Há cerca de 20 anos, que tenho a responsabilidade de garantir as escalas das equipas médicas do SU, e até há quatro anos tinha nove IFE em cada equipa médica. Este ano, só pude assegurar 5 IFE por equipa, dos quais apenas dois não são do 1º ano de formação. Não sei como será em 2027, que depende das escolhas das especialidades pelos IFE. Quem menospreza o valor do trabalho dos IFE no SU, deve estar há muito afastado das tarefas assistenciais e já não conhece a realidade.
É preciso inverter este ciclo de diminuição de IFE no SU, em que dentro em pouco apenas restam os de MI. Esta realidade tende a afastar cada vez mais os candidatos potenciais à escolha da Medicina Interna, mesmo aqueles que são atraídos pelo doente complexo e não fazem do dinheiro o objetivo de vida. As decisões necessárias, não vão agradar a todos. Mas, se a Tutela demorar a tomá-las, o modelo de SU em que vivemos será insustentável.
Noícia relacionada
A Inteligência Artificial a Salvar o SNS






