Entrevista. Doentes com asma não alérgica “poderão ter maior risco” de infeção

"Têm surgido múltiplos estudos sobre o papel da Covid-19 na asma" diz o médico especialista, que aborda o tema e realça a importância de monitorizar e tratar a asma independentemente da Covid-19.

Desde o inicio da pandemia que são vários os estudos publicados que associam a asma ao vírus SARS-CoV-2. Um estudo publicado no European Respiratory Journal concluiu que a asma não é um fator de risco da Covid-19. Já um outro estudo, da Coreia do Sul, concluiu que os pacientes com asma e rinite alérgica podem desenvolver a forma mais grave da infeção. Deste modo, falámos com o médico imunoalergologista e vice-presidente da SPAIC, o Dr. José Alberto Ferreira.

A asma pode ser um fator de risco da Covid-19?

A Covid-19 apesar de tudo ainda é uma patologia muito recente, com poucos meses, que ainda estamos a descobrir. Fazer estudos com um número significativo de doentes, que tenham simultaneamente Covid-19 e asma demora tempo e se as diversas variáveis não forem devidamente valorizadas (ex: idade, comorbilidades associadas…), poderemos ter dados difíceis de valorizar.

No início da pandemia, acreditava-se que tal como para outros vírus respiratórios (v. influenza –gripe, VSR (vírus sincicial respiratório) ou Rinovírus), também o novo coronavírus tivesse a capacidade de agudizar a asma. Adicionalmente, havia a suspeita que o próprio tratamento da asma (os corticóides inalados (ICS)) pudessem ser factores de agravamento em caso de infecção Covid). Posteriormente, começou a verificar-se o contrário, que os ICS parecem proteger o asmático em caso de infecção Covid-19.

O número de estudos contraditórios publicados pode interferir com o tratamento destes doentes, caso sejam infetados?

Têm surgido múltiplos estudos sobre o papel do Covid-19 na doença alérgica. Este estudo Coreano com milhares de doentes, parece mostrar que a asma e a rinite poderão ser factores de risco para contrair Covid e para que a infeção seja mais grave. Outros estudos, entretanto já publicados, não confirmaram isso. Em vários desses estudos a asma não parece ser fator de risco nem para contrair doença nem para gravidade. Parece, no entanto, que o subgrupo dos doentes com asma não alérgica [a menos comum] ou rinite não alérgica poderão ter, de facto, esse duplo maior risco quando comparado com “os alérgicos”.

Os resultados contraditórios poderão ser devidos a diferenças na classificação das doenças, na idade dos doentes incluídos no estudo, em diferenças genéticas entre as populações estudadas (europeia vs asiática), a estirpe do Covid dominante num dado período e numa dada região poderá ser diferente e ter diferente agressividade, etc. Como disse, ainda estamos a descobrir esta doença.

É necessário monitorizar de uma forma mais cuidada, as pessoas asmáticas, em relação à Covid-19?

A monitorização do asmático e o tratamento adequado da asma é e deverá ser sempre importante independentemente do Covid, no entanto, mais do que nunca é fundamental que o asmático seja incentivado a manter a sua avaliação médica e a sua medicação sem falhas ou esquecimentos.

AR/SO

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