“É uma vergonha não termos em 2020, em Portugal, um registo nacional dos doentes com AVC”

Neste Dia Mundial do AVC, a coordenadora da Unidade CerebroVascular do Centro Hospitalar de Lisboa Central destaca alguns dos desafios nesta área.

Neste Dia Mundial do AVC, para além de outras preocupações centrais – como a possibilidade de os tratamentos de reabilitação dos doentes com AVC voltarem a ser interrompidos, por causa da pandemia de Covid-19 –, a coordenadora da Unidade CerebroVascular do Centro Hospitalar de Lisboa Central, a Dr.ª Ana Paiva Nunes, em entrevista ao SaúdeOnline, expressa uma inquietação suplementar: para quando um verdadeiro registo nacional dos doentes com AVC?

 

A Via Verde do AVC foi e continua a ser apresentada aos portugueses como um caso de sucesso a 100%, no seio do sistema de saúde português? É efetivamente assim, ou existem arestas por limar?

Existem sempre arestas por limar, mas essencialmente a Via Verde, quando ativada no pré-hospitalar, funciona bem e permite tratar de forma rápida e eficaz os doentes vítimas de AVC. Há dois aspetos fundamentais a considerar. O primeiro está do lado da população e consiste em saber que, perante os sintomas/sinais de alerta, se deve contactar imediatamente o 112 e não se deve recorrer pelos próprios meios ao hospital; o segundo está do lado dos hospitais, já que em todos os serviços de urgência deste país deveria existir um protocolo de Via Verde de AVC bem feito e treinado pelos profissionais que fazem urgência.

Em 2018 e 2019, a sua unidade recebeu um prémio internacional pelo registo dos doentes submetidos a trombectomia, uma prática que infelizmente não se repete em todas as unidades hospitalares em Portugal. Que importância e implicações teria a obrigatoriedade deste tipo de registo em termos nacionais?

Na minha opinião é uma vergonha não termos em 2020, em Portugal, um registo nacional dos doentes com AVC. Não sabemos, de facto, quantos doentes são, como são tratados, onde são tratados, quais os resultados funcionais, quais as complicações, se tiveram acesso a reabilitação, qual reabilitação, nada. Os dados de que dispomos são medíocres, porque se baseiam em registos muito grosseiros. A circunstância de não termos dados fidedignos faz com que tenhamos muita dificuldade em planear estratégias de melhoria, tanto no acesso, como na qualidade dos cuidados.

O tratamento do AVC, na fase aguda, tem conhecido significativas evoluções em anos recentes, mas importa perceber se todos os doentes, em todos os locais do país, estão a ter acesso às mais recentes abordagens terapêuticas. Como classificaria esse acesso, é equitativo?

Não, não é equitativo nem é possível que seja de forma absoluta. Basta pensar que qualquer pessoa que esteja nos Açores, se tiver um AVC, não tem acesso a trombectomia. Há dois aspetos principais que devem ser considerados neste assunto. O primeiro é garantir que todas as pessoas tenham acesso ao mesmo nível de cuidados e o segundo é que cuidados que exigem uma grande diferenciação técnica só podem existir em centros de alto volume. Ou seja, para se fazer bem uma técnica é preciso ter muito treino. Não se podem abrir centros de trombectomia de forma indiscriminada, não garantindo a qualidade técnica desses centros. A trombectomia é só um dos passos no tratamento do doente com AVC, essencial em determinadas situações, mas só um dos passos.

Há medidas muito mais simples e baratas de pôr em prática que teriam um enorme benefício para todos os doentes com AVC, por exemplo, a criação de verdadeiras Unidades de AVC em todos os hospitais do país. O benefício do internamento numa Unidade de AVC, garantindo o acesso a uma equipa pluridisciplinar, é enorme e deveria estar acessível a todos os doentes com AVC.

Para além de ser coordenadora de uma Unidade AVC em Lisboa, pertencer aos órgãos sociais da Sociedade Portuguesa do AVC e ser coordenadora adjunta do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral da SPMI, decidiu também envolver-se numa organização não clínica, a Portugal AVC – União de Sobreviventes, Familiares e Amigos. Que relevância tem – ou gostaria que tivesse – a sociedade civil no combate às doenças cerebrovasculares?

Foi para mim uma enorme honra ser convidada para a Portugal AVC, exatamente porque considero que vai ter que ser a sociedade civil a exigir cuidados médicos de qualidade. O Prof. Castro Lopes tem uma frase que ficará para a história: “A reabilitação não é uma esmola, é um direito!”. As pessoas têm o direito de ser bem tratadas; não é tratadas com simpatia e condescendência, é serem tratadas de forma competente e eficaz.

Em Portugal temos um nível muito baixo de literacia em saúde, em todas as classes socioeconómicas. A maior parte das pessoas não faz ideia de como funciona o seu próprio organismo e esta ignorância faz com que não se saiba exigir qualidade. Resulta daqui que gastem dinheiro em terapias sem qualquer utilidade e reclamem por coisas sem sentido.

Ou seja, as associações de doentes vão ter que ter um papel em primeiro lugar de suporte, mas também de divulgação de conhecimento, de forma a capacitar as pessoas a exigirem aquilo de que, de facto, precisam, não se deixando manipular por outros interesses. O Presidente da Portugal AVC, Dr. António Conceição, é uma pessoa extraordinária, que sendo um sobrevivente de AVC consegue ter exatamente esta perspetiva.

Em recentes declarações à agência Lusa, destacou o facto de sobreviventes de AVC com enorme potencial de recuperação terem ficado com sequelas muito maiores devido à paragem dos tratamentos de reabilitação, face à pandemia de Covid-19. Está preocupada com futuros períodos de congelamento de atividades e de confinamento, que estes possam agravar a situação?

Sim, estou. A Portugal AVC teve já uma reunião na Secretaria de Estado da Saúde onde manifestámos exatamente essa preocupação. A reabilitação parou durante o período de confinamento e não pode voltar a parar. Há um continuum de cuidados de que o doente com AVC precisa e que não pode ser amputado, que vai desde a Via Verde até à reabilitação. Não faz sentido todo o trabalho que temos na fase aguda, com intervenções muito diferenciadas, se depois não aproveitarmos o potencial de recuperação do doente do ponto de vista da reabilitação. É fazer um tratamento incompleto e, portanto, medíocre. Não podemos ser medíocres a tratar pessoas.

A montante do trabalho das equipas hospitalares que lidam com os doentes afetados por AVC, há toda uma sequência de ações preventivas que podem diminuir o peso das doenças cerebrovasculares, ao nível da mortalidade e morbilidade. Qual é a sua visão sobre as campanhas de sensibilização e educação para a saúde nesta área? Têm ocorrido em número suficiente? É possível aferir da sua real eficácia?

Não têm ocorrido em número suficiente e sim, é possível aferir da sua eficácia. Sabemos que esta dura pouco tempo e portanto as campanhas deveriam ser periódicas. Pelo menos uma vez por ano deveria existir uma campanha de sensibilização para os fatores de risco, estilos de vida saudáveis, sinais de alerta, etc. Tentamos fazer isso tanto nas Sociedades Científicas como na Portugal AVC, aproveitando o Dia Nacional e o Dia Mundial do AVC, mas deveria fazer parte de uma estratégia do Ministério da Saúde com figuras públicas e de grande impacto. Penso, contudo, que o problema começa nas escolas. A educação para a saúde na escola deveria, na minha opinião, ser feita de uma forma mais didática e profunda.

O diagnóstico precoce dos doentes hipertensos e monitorização sistemática da sua PA, a redução do sedentarismo e a diminuição do consumo de sal serão, porventura, as três componentes nas quais é possível intervir com maiores ganhos potenciais na prevenção do AVC. As políticas de saúde assumidas para estes três eixos encontram-se desligadas entre si, na sua perspetiva?

Não sei se estão desligadas. O que eu acho é que não existe uma estratégia organizada de educação para a saúde, que deve começar nas escolas. Não interessa só dizer que não se deve consumir muito sal, interessa explicar porquê. Não interessa só dizer que não se deve ter a pressão alta, deve-se ensinar o que são artérias, o que é a pressão arterial, como funciona o cérebro, o coração e todo o organismo. Estou convencida de que as pessoas só aderem a um comportamento se compreenderem porquê. Se tiverem essa informação, vão ser menos sujeitas a falsas crenças e escolherão atitudes mais saudáveis.

Um melhor controlo da fibrilhação auricular (FA) e de outro tipo de arritmias na população portuguesa, como abordagem para a redução de risco para o AVC incapacitante, é defendido por si e por muitos dos seus colegas como uma intervenção chave… Estamos a fazer progressos, nesse domínio?

Penso que sim. Os novos hipocoagulantes conseguiram tirar aos médicos algum medo das hemorragias e ao longo dos anos tenho verificado essa mudança de atitude, especialmente nos médicos mais novos. O problema é que temos uma população cada vez mais envelhecida, em que a FA é muito prevalente. Na casuística da minha Unidade, a FA é atualmente responsável por quase 40% dos AVC isquémicos. Continuo, contudo, a verificar que existem muitos doentes medicados com a dose mais baixa do hipocoagulante sem nenhum motivo para essa redução de dose e constato, também, que é fundamental explicar ao doente a importância da adesão à medicação, não esquecendo as tomas recomendadas.

SO

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