18 Jan, 2022

Dia Internacional do Riso. “86% das crianças/adolescentes colaboram melhor com os tratamentos e exames após o contacto com os Doutores Palhaços”

"Devemos rir o mais possível! Rir ajuda à libertação de serotonina, uma hormona antidepressiva, e de endorfinas, responsáveis pelo bem-estar", defende Fernando Escrich, o diretor artístico da Operação Nariz Vermelha.

Na data em que se assinala o Dia Internacional do Riso, 18 de janeiro, o SaúdeNotícias entrevistou Fernando Escrich, o diretor artístico do grupo que traz os maiores sorrisos às crianças hospitalizadas em Portugal: a Operação Nariz Vermelho (ONV). Em conversa com o coordenador dos Doutores Palhaços, o SN tentou perceber quais os benefícios que várias gargalhadas por dia podem ter na recuperação do estado clínico destas crianças.

Qual a importância, para os Doutores Palhaços, de levar sorrisos às crianças hospitalizadas?

Levar sorrisos e alegria às crianças hospitalizadas, aos seus familiares e aos profissionais hospitalares é o centro da Missão da Operação Nariz Vermelho. A nossa mensagem é de alegria, de dar o poder à criança de ser criança e de usufruir do seu direito a brincar. É esse o trabalho dos Doutores Palhaços: ajudam as crianças a esquecer-se, por momentos, de que se encontram longe das suas casas, das suas famílias, daquilo que consideram o seu espaço natural, num ambiente muitas vezes assustador como é um hospital.

Quais os principais benefícios do riso na saúde humana?

A capacidade de rir e de manter o espírito positivo durante um período mais sensível, como uma hospitalização, tem muita influência na recuperação, tanto física como psicológica, do doente. E os Doutores Palhaços trabalham precisamente esse lado saudável da criança – a sua capacidade de brincar (que a doença por vezes lhe tira) –, tornando a experiência de hospitalização mais positiva.

Um estudo, feito em parceria com a Universidade do Minho, permitiu reunir informação, dados estatísticos e testemunhos que deram origem ao livro “Rir é o melhor remédio” (publicado em 2016). Este estudo ajudou a mostrar como o trabalho conjunto dos Doutores Palhaços e das equipas hospitalares permite a humanização do ambiente hospitalar e transforma a passagem ou permanência das crianças nos hospitais em experiências mais positivas. De entre as várias conclusões que podemos tirar desse estudo, destacamos estas, recolhidas junto de profissionais de saúde de 10 hospitais portugueses: 86% das crianças/adolescentes colaboram melhor com os tratamentos e exames após o contacto com os Doutores Palhaços; 84% toleram melhor a dor; e 93% esquecem, por alguns momentos, que estão no hospital.

O número de vezes que rimos é importante? Devemos rir quanto por dia?

Devemos rir o mais possível! Rir ajuda à libertação de serotonina, uma hormona antidepressiva, e de endorfinas, responsáveis pelo bem-estar. Rir promove uma sensação geral de bem-estar e faz-nos sentir mais saudáveis e realizados, e também diminui a intensidade de emoções negativas, como a tristeza e o stress, ajudando a relaxar o corpo inteiro. Por isso, trabalhar essa capacidade de rir e de manter o espírito da criança hospitalizada em alta é um dos focos do trabalho dos Doutores Palhaços.

Neste momento, a Operação Nariz Vermelho (ONV) faz rir cerca de quantas crianças de norte a sul do país?

Atualmente, a ONV visita mais de 100 serviços pediátricos em 17 hospitais públicos de norte a sul do país, perfazendo um total de cerca de 53 mil encontros com crianças internadas nestas instituições.

De que modo é que os Doutores Palhaços começam por cativar a confiança destas crianças?

Os Doutores Palhaços dão sempre à criança o direito a dizer “Não!”, que tantas vezes lhe é retirado enquanto está no hospital e tem de ser submetida a uma série de exames e procedimentos que a podem deixar ansiosa. Ao dar-lhe a capacidade de aceitar ou rejeitar a entrada dos Doutores Palhaços no quarto do hospital – já que, antes de entrarem, eles pedem sempre licença à criança –, estabelecem logo um compromisso de respeito e consideração pela sua vontade. Este compromisso ajuda a criar uma empatia que permite uma interação mais agradável para todos os envolvidos, e que é sempre conduzida pela própria criança, porque é ela que tem o poder do jogo do início ao fim.

Em idades pediátricas, não existe um completo entendimento sobre a sua própria condição de saúde. De que modo é que é necessário fazer um equilíbrio das emoções, junto destas crianças, de modo a permitir que exprimam também a tristeza?

É possível atingir este equilíbrio das emoções deixando que seja a criança a conduzir a interação, o Encontro com o Palhaço, e mantendo sempre claro que a criança tem direito a decidir quando o jogo termina. Os Doutores Palhaços têm formação específica para atuação em contexto hospitalar, formação essa que é contínua e que lhes permite continuar a aprender a adequar-se cada vez melhor às necessidades emocionais das crianças que encontram nos hospitais. Este trabalho contínuo da capacidade de improviso e adaptação ao Outro permite-lhes ter uma sensibilidade especial para lidar com os diferentes estados emocionais das crianças e adaptar a interação, o jogo, a brincadeira que fazem com ela ao seu estado de espírito, sempre com o objetivo de a ajudar a sentir-se melhor no fim.

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