1 Set, 2022

Demitiu-se a diretora clínica do Centro Hospitalar do Oeste, onde grávida perdeu bebé

A demissão de Filomena Rodrigues acontece depois de um relatório elaborado pela IGAS apontar várias falhas a toda a estrutura do hospital das Caldas da Rainha no dia em que uma grávida, em final de gestação, perdeu o bebé.

A diretora clínica do Centro Hospitalar do Oeste (CHO), Filomena Rodrigues, demitiu-se, confirmou a instituição.

“O conselho de administração do Centro Hospitalar do Oeste informa que a senhora doutora Filomena São José Silva Rodrigues renunciou ao seu mandato, cessando as suas funções de diretora clínica a 31 de agosto”, divulgou o CHO, sem apresentar quaisquer motivos.

A instituição esclareceu que está a “funcionar em total normalidade”, estando as funções a serem assumidas, de forma temporária, por Hélder Almeida, vogal executivo do conselho de administração, na ausência da sua presidente, Elsa Baião, que se encontra de férias.

No comunicado, o CHO agradeceu a Filomena Rodrigues a “dedicação, empenho e esforço que demonstrou ao longo do seu mandato de diretora clínica” desde 8 de novembro de 2019.

A demissão de Filomena Rodrigues acontece depois de conhecidas as conclusões preliminares do relatório elaborado pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) sobre a morte de um bebé, a 9 de junho, no Hospital das Caldas da Rainha. Uma grávida em final de gestação dirigiu-se a esta unidade hospitalar sem saber que as urgências de ginecologia/obstetrícia estavam fechadas. Ainda foi submetida a uma cesariana de emergência mas o bebé acabou por morrer.

Falhas em catadupa

Da diretora clínica ao Conselho de Administração, passando pela médica assistente hospitalar e pela técnica que admitia doentes na urgências, o documento distribui várias falhas a toda a estrutura do CHO.

A IGAS aponta “insuficiência de médicos para completar a escala”. No dia em que a grávida deu entrada no hospital das Caldas da Rainha (um dos três que compõem o CHO, juntamente com os hospitais de Torres Vedras e Peniche), não estaria de serviço nenhum médicos tarefeiro. Ora, no CHO, como em vários centros hospitalares do país, estes profissionais são cruciais para manter em funcionamento os serviços de Urgência e Obstetrícia.

A juntar ao problema de base – a falta de profissionais -, juntaram-se, nessa madrugada de junho, muitos outros. A grávida viu a sua inscrição recusada por uma assistente técnica, responsável na altura pela admissão de utentes nas urgências. A IGAS diz que a funcionária deveria ter pedido ao médico de serviço uma avaliação ao estado da mulher. Só através de nova insistência, com ajuda do INEM, e cerca de uma hora depois, a mulher foi admitida na urgência. A funcionária enfrenta agora um processo disciplinar.

De seguida, a assistência que a grávida recebeu por parte de uma médica obstetra também não foi a melhor. Embora não pormenorize, a IGAS afirma que a atuação da médica assistente hospitalar de ginecologia/obstetrícia que assistiu a mulher “é suscetível de ter violado os seus deveres funcionais”. Tal como a funcionária, a IGAS recomenda a instauração de um processo à especialista. No entanto, esse passo não pode ser dado pelo CHO, porque a lei não o permite – a médica tem um contrato individual de trabalho.

A IGAS deixa também crítica à cúpula do centro hospitalar, liderado por Elsa Baião, por não ter criado nenhum plano de contingência que permitisse a continuidade do serviço, garantindo o número de médicos necessários para o adequado atendimento das utentes. A somar a isso, não definiu “uma estratégia de comunicação interna”, que evitasse as falhas na admissão e triagem desta grávida, e não comunicou aos utentes “a existência de restrições no serviço”.

Também a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) é alvo de críticas. O organismo, liderado por Luís Pisco, não terá analisado o plano de contingência do CHO, de modo a avaliar se estaria de acordo com o previsto a nível distrital para as redes de referenciação. Isto mesmo depois de o CHO ter informado a ARSLVT das dificuldades em garantir médicos para o serviço de urgência obstétrica.

O CHO integra os hospitais das Caldas da Rainha, Torres Vedras e Peniche, tendo uma área de influência constituída pelas populações dos concelhos das Caldas da Rainha, Óbidos, Peniche, Bombarral, Torres Vedras, Cadaval e Lourinhã e de parte dos concelhos de Alcobaça e de Mafra.

SO/LUSA

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