Dar Um Rumo ao SNS

Temo que estejamos a ficar sem reação às notícias dos casos estranhos que se sucedem na área da saúde. Há sempre quem diga que não é por ocorrerem mais, mas sim por as notícias nos atropelarem no imediato. Quanto mais escandalosas, melhor! Pode ser que sim, mas o diabo é a perceção com que se fica.

Para quem dedicou a vida ao SNS, aquilo com que somos confrontados todos os dias, é muito penoso. António Arnaud, não deve conseguir descansar com tanto desassossego. Claro que tenho que começar pela Obstetrícia. Orgulhávamo-nos com razão da nossa Saúde Materno Infantil, que se refletiu numa baixíssima mortalidade infantil, colocando-nos no pelotão da frente dos Países civilizados. Julgo que os números ainda não mudaram, mas temo que irão piorar. Os bombeiros têm feito tantos partos, que seria justo dar uma medalha com uma carinha de bebé ao Soldado da Paz, que não vacilou para aparar o nascituro neste mundo. Nas paradas, as medalhas iriam reluzir tanto como os machados e capacetes, nos dias de festa da corporação!

A aptidão para fazer partos estende-se às equipas do INEM, aos vizinhos e aos maridos. Também merecem a medalhinha ou um certificado de competência. Ás tantas, ainda pode ter valor curricular para um qualquer concurso na área. Lembro-me de me terem contado como verdade, o caso duma vindimadeira que pariu o oitavo filho entre os bardos. Fiquei atónito com a raridade do acontecimento daquela mãe coragem. Agora é frequente que a mãe não se aguente e tenha de fazer tudo sozinha, mesmo num segundo filho. Ás vezes, teve alta poucas horas antes dum hospital onde foi observada, a 50 Km de distância!

Nas Urgências Gerais, a coisa vai de mal a pior. Há dias, com o tempo ainda quente, a televisão dada a notícia em rodapé dum hospital com 24h de espera para observação do doente amarelo pela Triagem de Manchester. Será que não se apercebem que a informação é puro Kafka, de tão ridícula que é? Quase que damos graças por 40% das Urgências não serem reais…

O Ministro das Finanças queixa-se dos gastos no regime de Dedicação Plena dos Médicos, que foi uma medida implementada pelo Governo Socialista. Acredito que ainda lhe doesse mais, se alguém lhe dissesse que essa alteração contratual, não deu nem mais uma hora de trabalho útil aos Serviços. Não quiseram a Regime de Exclusividade pensado por Leonor Beleza, com determinação e objetivos definidos. Preferiu-se não perturbar os interesses privados, manter a misturada e pagar mais, sem receber nada em troca.

No início deste Governo, ainda com a promessa de tudo na Saúde se resolver em 60 dias, discutiu-se ao de leve a vantagem de ter uma Direção Executiva do SNS. A dúvida parece-me legítima, mas prefere-se deixá-la no ar sem resposta. Tenho a impressão que quase todos a acham dispensável, mas ninguém tem coragem de acabar com ela. No meio de tanto dinheiro gasto, talvez esta despesa não seja assim tão grande.

A questão de fundo, quase a mãe de todas as outras, continua fechada nas intenções veladas, sem sair a terreiro para sabermos para onde ir. O que deve ser assegurado pelo SNS e o que deve ser deixado aos Privados e ao Setor Social?

O SNS precisa de um rumo, que só pode ser tomado se as decisões forem firmes e sem hesitações. Na Saúde, há muitos interesses instalados e não é possível agradar a todos, nem adiar sempre. O objetivo determinante nos dias de hoje, é conseguir ter mais Médicos disponíveis no SNS. Pouco importa o Ministro que o consiga. Aplaudo qualquer um que o faça e nos devolva o orgulho e o reconhecimento pelo serviço público que prestamos!

 

LUSA/SO 

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