Quais as implicações das mudanças impostas pela pandemia COVID-19 no tratamento dos doentes com AVC?

Dr. Miguel Rodrigues: O país europeu que está a ser atingido mais intensamente pela COVID-19 é a Itália. É de lá que nos chega a experiência do impacto sobre o tratamento do AVC.

O médico Francesco Corea, presidente da comissão para as redes sociais da Sociedade Europeia de AVC (ESO) descreve na página desta sociedade o que se passa no Norte de Itália, em seis áreas fundamentais.

Quais são essas áreas e qual é a experiência de Itália?

Em primeiro lugar, no que diz respeito à rede de cuidados ao AVC agudo, na Lombardia e municípios vizinhos, foram criados novos centros de AVC, sendo as grandes unidades de AVC, com instalações e equipamentos para tal, sacrificadas para prestar assistência a indivíduos com doença respiratória. Hospitais de menores dimensões foram convertidos em centros médicos para pacientes estáveis ​com COVID-19, resultando na desarticulação das redes de AVC previamente operacionais e eficientes. A emergência pré-hospitalar está assoberbada com os casos respiratórios e o doente com AVC agudo pode demorar mais tempo a chegar ao hospital, com informação de qualidade inferior para a tomada de decisões. Quando chega, geralmente, a família não pode acompanhá-lo, sendo a colheita de história clínica e antecedentes pessoais feita por telefone, um processo mais moroso e incerto.

O transporte inter-hospitalar está menos disponível, por indisponibilidade de veículos e mobilização de pessoal especializado para acompanhar o doente, e aumenta o risco de contágio, na passagem em dois hospitais diferentes, com diversos profissionais. Deve, por isso, ser ponderada a razão risco/benefício e selecionados os doentes de forma criteriosa, para evitar transportes fúteis.

O que se passa com as atividades de rastreio do AVC?

O sistema de saúde italiano está agora com uma restrição importante dos exames e procedimentos de rastreio médico não urgentes. Uma grande parte dos clínicos gerais em áreas muito afetadas está sobrecarregado com o atendimento a doenças infeciosas e respiratórias. Não há tempo para as medidas habituais de prevenção primária do AVC. Os tratamentos cirúrgicos não urgentes podem ser adiados várias semanas (por exemplo, cirurgia de estenose da artéria carótida, cirurgia cardíaca).

Que medidas estão a ser implementadas em Itália em termos de segurança dos profissionais de saúde?

Muitos profissionais com suspeita de contactos desprotegidos com pacientes com COVID-19 têm que ser isolados em quarentena e o hospital perde o seu contributo durante semanas. O protocolo para certificar a negatividade do médico é complexo, pois é necessário fazer mais de uma análise e, se possível, recomenda-se duas semanas de isolamento em casa para minimizar o risco de disseminação da doença na equipa da unidade de AVC.

Qual a situação e recomendações relativamente aos exames de imagem, companhamento de familiares e reabilitação dos doentes?

O acesso aos exames de imagem de diagnóstico é, de certa forma, facilitado, pois todos os exames não urgentes foram cancelados, no entanto é necessário garantir a desinfeção adequada dos equipamentos que são compartilhados entre diferentes serviços hospitalares.

Quanto à presença de familiares no apoio a doentes com AVC, nos primeiros dias é muito útil. No momento atual, esta presença é limitada devido à necessidade de restringir fortemente o acesso de visitantes às enfermarias. Alguns familiares estão com receio de se deslocar ao hospital e os médicos têm mais dificuldade em organizar a alta do hospital no momento adequado.

No que diz respeito aos tratamentos de reabilitação nas instalações hospitalares e comunitárias, ficam indisponíveis devido à impossibilidade de fazer fisioterapia com segurança atendendo às medidas de prevenção de contágio em vigor. Os doentes com AVC devem aprender exercícios que possam fazer em casa, mantendo o isolamento social. É possível que, no futuro, os cuidados de reabilitação respiratória aos sobreviventes da COVID-19 desviem profissionais e meios previamente envolvidos na reabilitação do AVC.

Considerando que os meios do SNS português não são superiores aos da Lombardia, admite-se que a experiência dos colegas italianos com doentes de AVC nesta fase de pandemia possa servir de perspetiva para o que venha a ocorrer em Portugal.

Os doentes crónicos, nomeadamente os sobreviventes de AVC, estão em maior risco relativamente à COVID-19?

Ser vítima ou ser sobrevivente de um AVC por si só não coloca o doente em maior risco de ter COVID-19, nem há estudos que permitam dizer que os doentes com COVID-19 estejam em risco de vir a ter um AVC, porque a maior parte tem sintomas pouco graves. Mas muitas pessoas que têm um AVC pertencem a um grupo de risco por serem idosos, estarem mais fragilizados ou terem uma doença crónica como diabetes, hipertensão arterial, doença cardíaca, doença respiratória ou doença renal crónica. É muito importante que estes doentes que pertencem a grupos de risco mantenham distanciamento social e permanência no domicílio durante a pandemia, como recomendado pelas autoridades de saúde.

SO

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