18 Abr, 2023

Controlar a dor nociceptiva e neuropática com um opioide de dupla ação

Raul Marques Pereira, especialista em Medicina Geral e Familiar, coordenador da Consulta de Dor na USF Lethes e do grupo de Estudos de Dor da APMGF (MGF.dor), e Hugo Cordeiro, especialista em Medicina Geral e Familiar na SCM Porto e membro do MGF.Dor, foram os oradores do simpósio “Tapentadol na gestão da dor crónica: será que já sabemos tudo?”, promovido pela Grünenthal, no 40.º Encontro Nacional APMGF, que decorreu entre 29 de março e 1 de abril.

Controlar a dor nociceptiva e neuropática com um opioide de dupla ação

“Um em cada três portugueses que vai aos cuidados de saúde primários tem dor crónica”1, alertou Raul Marques Pereira. Face ao “forte impacto físico, psicológico e social” da dor crónica, o também médico de família da USF Lethes, considera que é preciso conhecer as propriedades de cada fármaco, especialmente dos opioides. “Está bem estudado que os opioides tradicionais, como a morfina e a oxicodona, produzem os seus efeitos terapêuticos e adversos mediados pelos mesmos recetores μ-opioides.2 No caso do Tapentadol, o mecanismo de ação é dual, ou seja, é um fármaco agonista dos recetores μ-opioides e um inibidor da recaptação da noradrenalina”3, acrescentou.

Tendo por base a literatura e a prática clínica – a formulação de ação prolongada foi disponibilizada em Portugal em 2012 -, Hugo Cordeiro realçou o facto de o Tapentadol ser eficaz tanto na dor nociceptiva, como na dor neuropática e na dor mista.4-8 “Isto confere-lhe uma enorme aplicabilidade que vai desde a dor associada a osteoartrose, extremamente comum no nosso dia a dia, até à dor oncológica”, exemplificou.

Esta ação dual e o seu perfil de tolerabilidade permitem também otimizar a adesão terapêutica, uma vez que como demonstrado no estudo de vida real Überall et al, este opioide reduziu de forma significativa a percentagem de doentes com analgésicos adjuvantes, nomeadamente antidepressivos, anticonvulsivantes e relaxantes musculares9, o que permitiu reduzir a polifarmácia e poderá melhorar a adesão terapêutica.

 

Nuno Jacinto, Presidente da APMGF, Hugo Cordeiro e Raul Marques Pereira

“Um opioide que não é metabolizado via  enzimas CYP”3

Face às dúvidas que ainda existem relativamente ao uso de opioides, nomeadamente nos cuidados de saúde primários, os especialistas deram respostas a algumas das questões mais frequentes e que foram recolhidas junto de médicos de família no país. É o caso do efeito de inibição da recaptação da noradrenalina do Tapentadol, que, como disse Raul Marques Pereira, é “a grande questão” por se considerar que os doentes podem não necessitar desta componente terapêutica.  Relativamente a este ponto, o médico lembrou que “muitos doentes com osteoartrose também têm dor com características neuropáticas, daí fazer todo o sentido o seu uso”.

Uma outra diz respeito à possível interação com anticoagulantes. “É possível utilizar o Tapentadol com anticoagulantes3, contrariamente a outros fármacos para a dor como é o caso dos anti-inflamatórios”, garantiu o médico de família. Como explicou Hugo Cordeiro, trata-se de “um opioide que pode ser utilizado em doentes com doença cardiovascular.3 “Não tem qualquer influência no intervalo QT e no ECG10,11; a única ressalva é o doente cardíaco instável, mas essa indicação é para todos os opioides.”

Ainda relativamente ao perfil de segurança, Raul Marques Pereira lembrou que o facto de a via de metabolização não ser a das enzimas CYP é também uma mais-valia na prevenção de problemas associados a interações medicamentosas3, já que “os doentes tendem a fazer automedicação”.

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Hugo Cordeiro falou ainda das dúvidas quanto ao impacto na função renal, já que muitos dos doentes com dor crónica são idosos, com comorbilidades. De acordo com a evidência científica e com a prática clínica, em doentes com insuficiência renal ligeira a moderada não é necessário fazer ajuste de dose.3 A única ressalva é na insuficiência renal grave, uma condição que não é habitual nos cuidados de saúde primários. “Mesmo assim, há registo de doentes hemodialisados; contudo não existem estudos suficientemente robustos que garantam segurança.”

No doente hepático, apenas é preciso ajustar a dose nos casos moderados. “Em vez de um comprimido de 12 em 12 horas, deve fazer-se um comprimido de 24h em 24h.”3

Concluindo, ambos destacaram o “impacto positivo” de um único fármaco que, apesar de ser opioide, demonstrou uma efetividade significativamente superior e um  perfil de tolerabilidade mais favorável no tratamento da lombalgia crónica intensa versus outros opioides orais LP clássicos.9 Evidenciaram ainda que a “melhoria da qualidade de vida e da recuperação funcional deve ser considerada o principal objetivo do tratamento do doente com dor crónica e que o  controlo da dor permite ainda reduzir os custos indiretos associados a esta patologia”.

SO

 

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Referências:

  1. Antunes F, Pereira RM, Afonso V, Tinoco R. Prevalence and Characteristics of Chronic Pain Among patients in Portuguese Primary Care Units. Pain Ther.2021;
  2. Trescot AM, Datta S, Lee M, Hansen H. Opioid pharmacology. Pain Phys. 2008;11(2 Suppl):S133–53.
  3. Resumo de Caraterísticas do Medicamento Palexia retard, versão 20, Fevereiro 2023.
  4. Afilalo M et al. Clin Drug Investig 2010; 30 (8): 489-505;
  5. Schwartz S et al. CMRO 2011; 27(1): 151–62 (KF36);
  6. Steigerwald I et al. CMRO 2012; 28(6):1–26.;
  7. Baron R et al. Pain Practice, Volume 16, Issue 5, 2016 580–599;
  8. Kress HG, et al. Pain physician. 2014; 17: 329-343.
  9. Überall MA, et al. Pain Management.Epub2021.Aug11.
  10. Oh C et al. A thorough QT/QTc study of multiple doses of tapentadol immediate release in healthy subjects. International Journal of Clinical Pharmacology and Therapeutics 2010; 48(10):678-687.
  11. Biondi DM et al. Evaluation of Blood Pressure and Heart Rate in Patients with Hypertension Who Received Tapentadol Extended Release for Chronic Pain: A Post Hoc, Pooled Data Analysis. Clinical Drug Investigation 2014; 34(8): 565-576.

 

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