Como abordar o doente obeso na consulta
Endocrinologista, Serviço de Endocrinologia do Hospital das Forças Armadas – Pólo Lisboa; Coordenador do Grupo Multidisciplinar de Obesidade do Hospital CUF Tejo

Como abordar o doente obeso na consulta

A obesidade é reconhecida como uma doença crónica, multifatorial, progressiva e recidivante, associada a um aumento significativo da morbilidade, mortalidade e perda de qualidade de vida. A sua abordagem em consulta deve, por isso, ir além da simples avaliação do índice de massa corporal (IMC), exigindo um modelo estruturado, centrado no doente e baseado na evidência científica.

O primeiro passo na consulta deve ser o enquadramento da obesidade como uma condição médica tratável, reduzindo o estigma associado ao excesso de peso. Este momento inicial é fundamental para estabelecer uma relação terapêutica eficaz, aumentar a adesão e alinhar expectativas realistas.

A avaliação clínica pode ser organizada em quatro eixos: metabólico, mecânico, mental e monetário. No domínio metabólico, é essencial caracterizar a história ponderal, identificar comorbilidades associadas — como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia ou doença hepática— e reconhecer fármacos que possam contribuir para o aumento de peso.

A componente mecânica centra-se no impacto funcional do excesso de adiposidade, nomeadamente dor osteoarticular, limitação da mobilidade e suspeita de síndrome de apneia do sono. A avaliação mental permite identificar perturbações do humor, compulsão alimentar e fatores motivacionais, enquanto a dimensão financeira avalia o acesso a cuidados de saúde e terapêutica.

O exame objetivo deve incluir peso, altura, cálculo do IMC, perímetro abdominal, rácio cintura/altura e medição da pressão arterial, complementados pela observação de sinais clínicos de complicações associadas à obesidade. Sempre que possível, a avaliação da composição corporal pode acrescentar informação relevante.

O diagnóstico não depende apenas do IMC, mas também da presença de adiposidade central e complicações clínicas. O estadiamento através de sistemas como o Edmonton Obesity Staging System permite estratificar o risco e orientar a magnitude da intervenção terapêutica, distinguindo doentes sem complicações significativas daqueles com doença metabólica ou lesão de órgãos-alvo. Neste sentido, é fundamental proceder ao rastreio sistemático de complicações, através de exames laboratoriais e, quando indicado, imagiológicos ou funcionais. Esta avaliação objetiva sustenta a decisão terapêutica e reforça a perceção da obesidade como doença.

A abordagem terapêutica deve ser individualizada, contínua e faseada. Intervenções no estilo de vida, incluindo nutrição, atividade física adaptada e medidas comportamentais, são indicadas para todos os doentes. A terapêutica farmacológica deve ser considerada mediante critérios clínicos, sendo escolhida de acordo com o fenótipo, as comorbilidades, a eficácia esperada e a tolerabilidade. Em casos selecionados, a cirurgia metabólica constitui uma opção eficaz.

Em suma, a abordagem do doente obeso na consulta deve ser estruturada, empática e baseada na evidência, ao longo do diagnóstico, tratamento e seguimento desta doença crónica.

 

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