Como a pandemia modificou o acompanhamento do doente com hipertensão pulmonar

Diagnosticar a hipertensão pulmonar exige a realização de métodos de diagnóstico que implicam algum risco de produção de aerossóis e, consequentemente, de contágio pelo novo coronavírus

Quais são os principais métodos de diagnóstico da hipertensão pulmonar?

O único método de diagnóstico da hipertensão pulmonar (HP) é através de cateterismo cardíaco direito, exame invasivo, que permite a medição de pressões e resistências no circuito cardiopulmonar e habitualmente não requer internamento.

Existem, no entanto, outros exames complementares que o doente terá de fazer, estes, são importantes para suspeição deste diagnóstico, visam auxiliar na determinação da causa e do impacto da doença na vida diária.

Os exames que habitualmente terão de ser realizados são: analises, eletrocardiograma, ecocardiograma, radiografia ao tórax, cintigrafia de ventilação/perfusão, provas de função respiratória e teste de marcha de 6 minutos.

Na maioria dos casos, após esta investigação, o médico conseguirá confirmar o diagnóstico de HP, a sua etiologia, a gravidade da mesma e qual a melhor opção terapêutica.

Que ajustes foram necessários realizar para continuar a assegurar a realização destes procedimentos, já que alguns deles são mais invasivos e levam à produção de aerossóis?

Esta nova realidade requereu alguns ajustes, essencialmente ao nível da programação da atividade.  A primeira medida foi limitar as deslocações do doente ao hospital/Unidade de HP (UHP) às estritamente essenciais, rentabilizando-as ao máximo, por exemplo, realizando por agendamento prévio o maior número de exames por deslocação, sempre que possível sem acompanhantes e disponibilizar contato telefónico para esclarecer qualquer dúvida.

Em segundo lugar, o doente deveria comparecer de máscara e o profissional de saúde estar equipado com o equipamento de proteção individual adequado. No caso dos exames invasivos e dos que tinham risco de produção de aerossóis, o doente teria de realizar Teste COVID-19 até 48h antes do procedimento. Estas medidas continuam a vigorar atualmente.

E no desenvolvimento de ações terapêuticas e de educação do doente para a doença, que estratégias necessitaram desenvolver desde que estamos a viver o cenário de pandemia pelo novo coronavírus para continuar a acompanhar quem sofre de hipertensão pulmonar?

A estratégia mais importante foi reforçar o apoio personalizado aos doentes e respetivas famílias. Quando o doente chega à nossa unidade e confirma-se que é possível ajudá-lo, a coordenadora da UHP elabora um plano de tratamento personalizado, e isto implica um acompanhamento do doente que envolve deslocações físicas regulares ao hospital, para consultas, exames, cuidados de enfermagem e um apoio telefónico disponível 24/24 h.

No cenário atual, as deslocações físicas programadas foram limitadas, às essenciais e reforçou-se a utilização da consulta telefónica programada. Esta consulta programada permitiu, acompanhar os doentes à distância, recordar as medidas recomendadas pela DGS – a etiqueta respiratória, a higiene das mãos, o isolamento social e os sintomas de alerta da infeção por COVID 19 – vigiar sinais vitais, detetar precocemente agravamento clínico, vigiar a anticoagulação oral (nos casos em que se aplicava), fazer alguns ajustes terapêuticos e sempre que necessário programar  exames, cuidados de enfermagem e consulta presencial e/ou internamento.

Os doentes e respetivas famílias foram também incentivados a contatar a linha de apoio 24/24h, que já existia desde o início da UHP, sempre que necessitassem de esclarecer dúvidas, surgisse alguma intercorrência ou identificassem sinais de alarme associados à HP ou à suspeita de infeção por COVID 19.

Outro ajuste importante, que deu muito conforto aos doentes, foi a reorganização da dispensa de medicação por parte da farmácia hospitalar. Na maioria dos casos forneceu-se medicação para um período mais longo, evitando as deslocações ao hospital, generalizou-se o envio de medicação para a farmácia de proximidade (hospitalar ou comunitária) e houve casos em que a medicação foi entregue à porta do doente. Além destes ajustes internos, desenvolveu-se uma parceria com a Câmara Municipal de Almada para o fornecimento de medicação aos doentes. Foram também fornecidos contatos adicionais da farmácia hospitalar (telefone e e-mail) para uma melhor articulação com os doentes e famílias.

No contacto que tem com os doentes, que preocupações estes têm manifestado relativamente ao novo coronavírus? Nota diferenças no comportamento dos doentes desde que foi iniciado o período de desconfinamento?

A maioria dos doentes teme que a infeção por COVID 19 agrave o seu estado de saúde resultando numa progressão da doença e/ou morte prematura. O desconhecimento me as incertezas sobre muitos aspetos desta infeção são fonte de muita ansiedade para os envolvidos, daí que o maior anseio seja uma vacina ou um medicamento curativo. Este contexto, associado às informações fornecidas pelos profissionais de saúde, pela Associação Portuguesa de Hipertensão Pulmonar e veiculada pela comunicação social, tem levado os doentes a uma postura muito cautelosa, por vezes com interrupção da atividade profissional e rigoroso cumprimento das orientações da DGS. Também evitam ao máximo as deslocações ao hospital privilegiando o contato telefónico e sempre que a ida ao hospital ou a outra unidade de saúde é-lhes requerida, confirmam a pertinência com a UHP. Naturalmente o período de desconfinamento para alguns doentes deu algum ânimo, houve quem retomasse a atividade profissional, mas com muitas restrições, no entanto, a maioria continua a verbalizar o fardo psicológico que a pandemia impõe, limitando o seu dia-a-dia.

RV/SO

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