5 Ago, 2022

Carreira médica não é revista há 13 anos, alerta Bastonário

Revisão da carreira médica é uma forma de evitar "a hemorragia" que é a saída de médicos do SNS, segundo Miguel Guimarães.

O bastonário da Ordem dos Médicos considerou que nada foi feito para evitar a “hemorragia” que está a ser a saída de médicos do Serviço Nacional de Saúde (SNS), recordando que a carreira médica não é revista há 13 anos.

Em entrevista à Lusa, Miguel Guimarães disse que durante estes anos “o Estado nada fez para tentar evitar esta hemorragia”, fosse pela via da valorização dos profissionais, mas sobretudo pela carreira médica, “que não é revista desde, pelo menos, 2009 em termos daquilo que é o ganho mensal médio dos médicos”.

Miguel Guimarães afirmou que já em 2017 a Ordem dos Médicos tinha alertado de “forma clara” o Governo para a falta de médicos, concretamente no SNS.

“Apesar de termos de facto muitos médicos comparados com a maior parte dos países, a verdade é que muitos que poderiam estar no SNS – até porque a maioria forma-se no SNS – acabam por tomar outras opções”, nomeadamente sair para o setor privado, social ou para o estrangeiro.

Segundo Miguel Guimarães, há hoje “muitos mais médicos” a sair do SNS do que havia há cinco ou 10 anos, uma situação que “tem impacto” na organização do SNS e à qual vai ser “muito difícil” dar a volta.

“A partir do momento em que os médicos já não acreditam em quem está a gerir a saúde em Portugal, abandonam o SNS e escolhem ter outra vida e isto é um sinal vermelho para o Governo”, vincou, considerando que o quebrar da confiança “é a pior coisa que pode acontecer”.

Neste momento, todos os dias saem do SNS especialistas com vários anos de profissão, uma situação que Miguel Guimarães disse ser grave e que revela “a incompetência de quem gere a saúde em Portugal” e “a incapacidade que o Governo tem demonstrado em ter uma gestão diferente do SNS” e em dar-lhe aquilo que precisa.

No seu entender, este é “um caminho desastroso para o país”, defendendo que é preciso adaptar o SNS, que precisa de uma “nova dinâmica” para poder continuar a servir bem as pessoas.

Sobre quantos médicos seriam necessários no SNS, Miguel Guimarães estimou cerca de cinco mil, considerando todas as especialidades.

No seu entender, é necessário um novo modelo de carreira médica que permita dar resposta a um conjunto de situações, dar estabilidade ao SNS e que permita que no futuro as pessoas estejam a lutar para ficar.

Se mudarmos a carreira médica, mudamos o paradigma todo. Mudamos o paradigma da formação, porque aumentamos a capacidade de formação, atraímos mais os médicos para ficarem no SNS e conseguimos resolver vários dos problemas que existem neste momento”, defendeu.

Por outro lado, é necessário um novo modelo de gestão que dê autonomia, mais flexibilidade e permita tomar decisões de contratação, de compras de equipamentos e outras decisões relacionadas com as necessidades que vão acontecendo a nível da área que um hospital serve.

Questionado se a nova Lei de Bases de Saúde e o novo Estatuto do SNS vão permitir estas alterações, afirmou que o novo modelo de gestão, a carreira médica e as carreiras dos profissionais de saúde podem ser alteradas já, não dependem de um estatuto para o SNS.

Pagamento de horas extraordinárias é justo apesar de pontual

O bastonário defendeu também a continuidade do novo regime de pagamento de horas extraordinárias nas urgências, que vigora até ao final de janeiro de 2023, para que “a injustiça” não volte a reinar.

“Não fazia sentido que um médico que veste a camisola do SNS todos os dias e que fazia horas extraordinárias, mesmo além das 150 horas previstas na legislação (…), recebesse 12, 15 ou 17 euros à hora e um médico contratado a uma empresa prestadora de serviço recebesse 30, 40 ou 50 euros à hora”, elucidou.

Alertou ainda que os problemas nos serviços de urgência não se restringem à Obstetrícia/Ginecologia, dando o exemplo da Medicina Interna.

Segundo o representante dos médicos, não há nenhum hospital do país sem problemas. “Os grandes porta-aviões [hospitais] estão a perder médicos também todos os dias. É uma questão geral e, portanto, é pouco previsível que a necessidade de contratar serviços médicos através de empresas prestadoras de serviços ou até os médicos diretamente como tarefeiros vá desaparecer até ao fim do mês de janeiro”, argumentou.

Falou ainda do aumento de casos de síndrome de burnout e de sofrimento ético e criticou o facto de o país ainda não ter dado um primeiro passo na preparação dos serviços de saúde para a Jornada Mundial da Juventude em 2023, onde são esperados um milhão de jovens em Lisboa.

 

SO/LUSA

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