3 Set, 2021

Alergias. “O nosso sistema imunológico é responsável por montar uma resposta a corpos estranhos”

Assinalou-se a 8 de julho o Dia Mundial da Alergia e, nesse sentido, a Saúde Notícias entrevistou a vice-presidente da SPAIC (Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica), Ana Morête, para nos explicar os que são alergias e de modo é que estas têm vindo a evoluir em Portugal.

De um modo simplificado, o que são as alergias?

A doença alérgica resulta sempre de uma resposta exagerada do nosso organismo a determinadas substâncias, o que desencadeia uma série de sintomas e sinais que leva às diferentes manifestações desta doença.

As reações alérgicas são diferentes de doente para doente, podendo afetar diferentes órgãos alvo e apresentar diferentes graus de gravidade. Por exemplo, se o contacto com um pólen afetar o órgão alvo nariz, então o doente apresenta sintomas como salvas de espirros, comichão no nariz, rinorreia e obstrução nasal – sintomas de rinite, e consoante a intensidade dos sintomas ela pode ser ligeira moderada ou grave.

 

Como é que estas são desencadeadas no ser humano?

O nosso sistema imunológico ao entrar em contacto com um corpo estranho, por exemplo, substâncias ambientais ou alimentares, é responsável por reconhecê-lo e montar uma resposta imunológica de forma a tolerá-lo ou lutar contra ele. Esse corpo estranho é chamado cientificamente de antigénio.

No caso dos doentes alérgicos e em resposta a este antigénio (por exemplo o pólen ou o leite) o sistema imunológico vai desenvolver uma resposta exagerada que implica uma atuação em cascata de diferentes mediadores imunológicos como os anticorpos, células de defesa como os linfócitos e uma grande quantidade de substâncias como citocinas, histamina, entre outras. Esta processo conduz à inflamação no órgão/órgãos em que está a decorrer desencadeando reações em poucos minutos/horas e que é percebido pelo doente como por exemplo manchas vermelhas e comichão após contacto com o antigénio.

 

Como tem sido a evolução da reatividade da população a certas substâncias?

A doença alérgica é uma doença hereditária, não nascemos alérgicos, mas à medida que o nosso organismo nas diferentes portas de entrada – sistema respiratório, mucocutâneo, gastrointestinal – vai entrando em contacto com os antigénios com potencial de desencadear alergia (alergénios) e consoante o seu grau de maturidade e tolerância vai desenvolver uma resposta individual.

Assim a evolução da reatividade é individual dependente da interação da hereditariedade com o meio ambiente, i.e., o organismo só constrói uma resposta exagerada como a reação alérgica se estiver exposto às substâncias alergénicas.

alergias

Quais as principais causas do aparente aumento da hipersensibilidade da população?

Os estudos epidemiológicos mostram claramente que a doença alérgica nas suas diferentes manifestações está a aumentar e também sabemos que o estilo de vida industrializado nomeadamente uma dieta menos mediterrânica com uso de alimentos mais processados, as poluições entre outros amplificam a resposta imunológica e a doença alérgica. Cada vez temos mais crianças com alergia alimentar com aparecimento mais precoce e com quadros mais graves na sua apresentação.

Em relação aos alergénios respiratórios o aquecimento global e os períodos mais longos de polinização aumentaram a expressão, duração e gravidade da alergia aos pólenes.

 

Quais são os principais alergénios em Portugal e qual o motivo para tal?

Os principais alergénios que em Portugal são responsáveis por doença alérgica são os aeroalergénios, os fármacos, os alimentos e os venenos dos himenópteros (abelhas e vespas).

Os principais aeroalergénios são os ácaros do pó, os pólenes de gramíneas, de árvores (oliveira, plátano e bétula) e as ervas como a parietária e o plantago. Em relação aos ácaros e aos pólenes temos disponível no site da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica SPAIC (www.spaic.pt) o mapa acarológico de Portugal e o mapa polínico com toda a informação sobre as principais espécies, períodos de polinização que são uma valiosa ferramenta para os doentes.

Quanto aos fármacos os mais comumente implicados são os anti-inflamatórios não esteroides, os antibióticos e os anestésicos.

Em relação aos alimentos, qualquer um pode induzir reação alérgica, mas os mais frequentemente implicados são o leite, ovo, trigo, peixe, amendoim, frutos secos, frutos frescos e marisco. É mais prevalente na idade pediátrica. Na criança a maioria das alergias é transitória e principalmente causada pelo leite, ovo, trigo. Algumas persistem na idade adulta, sendo mais comum a alergia ao peixe, marisco, frutos secos e frutos frescos.

 

alergias

 

Quais as faixas etárias mais afetadas pelas alergias?

A doença alérgica é transversal a todas as faixas etárias, podendo afetar desde o recém-nascido ao doente idoso. Por exemplo em Portugal, estudos epidemiológicos recentes sobre rinite estimam uma prevalência de 21,5% a 24% em crianças, 27% em adolescentes, 26,1% nos adultos e 29,8% no idoso.

Em relação à asma estima-se que no decorrer da vida um milhão de portugueses tenha tido asma, com uma prevalência atual de 700 000 portugueses.

Já a alergia alimentar afeta até 5% das crianças e aproximadamente 2% dos adultos.

 

Qual o número total de alérgicos atualmente em Portugal?

Infelizmente o número total de doentes alérgicos em Portugal é desconhecido.

A evidência para a prevalência da doença alérgica no nosso país é grandemente limitada pela falta de uniformidade nos critérios utilizados para fazer o diagnóstico e na não obrigatoriedade de declaração desta doença.

De uma forma geral, estima-se que até um quarto da população portuguesa apresente alguma forma de manifestação da doença alérgica com uma evidência crescente de um aumento na prevalência.

 

A presença de alergias pode ser um fator determinante para o surgimento de outras comorbidades?

Classicamente as doenças alérgicas estão associadas a múltiplas comorbidades.

Por exemplo a rinite alérgica tem uma forte associação com a asma em todas as idades. Entre 10-40% dos doentes com rinite tem asma associada e 80% dos asmáticos tem rinite. A rinite alérgica associa-se ainda a várias outras doenças como conjuntivite, rinossinusite, polipose nasal, disfunção tubar, otite serosa, otites recorrentes, tosse crónica, roncopatia com ou sem apneia obstrutiva do sono, laringites e infeções respiratórias de repetição.

De uma forma geral a patologia alérgica não controlada tem um profundo impacto negativo no bem-estar físico, social e psicológico, estando associada a grandes perturbações da qualidade do sono, produtividade profissional e escolar, comportamento psicossocial e sexual.

Uma maior consciencialização sobre os efeitos prejudiciais da doença alérgica na qualidade de vida dos doentes e o seu considerável custo devem incentivar o diagnóstico e o tratamento precoce a fim de minimizar o fardo desta doença.

 

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