A Vida em Suspenso
A prática da Medicina Geral e Familiar assenta, desde sempre, numa relação de proximidade e confiança com os nossos utentes. Somos treinados para ser uma presença estável, uma referência clínica e até emocional para quem nos procura. Contudo, há momentos na vida em que essa estabilidade se desfaz. Embora tudo à nossa volta pareça continuar a correr à velocidade habitual (as consultas, telefonemas, relatórios ou até as “palavrinhas”), dentro de nós, algo fica suspenso. É como se o mundo mantivesse o ritmo, enquanto o nosso próprio coração parece hesitar antes de bater. É assim o momento em que o médico de família adoece. Ou, talvez ainda mais perturbador, quando alguém de quem gostamos adoece gravemente.
É uma experiência que raramente verbalizamos. Não por vergonha, mas porque não parece enquadrar-se bem no papel que nos habituámos a desempenhar, o de ser uma referência, uma voz calma que organiza o caos. E, de repente, damos por nós do outro lado da mesa, vulneráveis e assustados, dependentes de decisões que não controlamos. A medicina, que tantas vezes é uma bússola, torna-se um mapa desfocado.
Quando a pessoa doente é um familiar próximo, este sentimento intensifica-se. O conhecimento clínico, ao invés de ser uma âncora, transforma-se numa lâmina de dois gumes: sabemos demasiado para estar tranquilos, mas nunca o suficiente para assegurar o desfecho que desejamos. A objetividade evapora-se. A racionalidade cede espaço ao medo. E o medo, esse velho conhecido dos nossos pacientes, revela-se então com uma nitidez quase cruel.
É essa circunstância que nos permite compreender algo essencial: a vulnerabilidade não nos diminui como médicos, torna-nos mais humanos e aproxima-nos dos utentes. Recorda‑nos que cada pessoa que atendemos vive, naquele momento, a mesma suspensão que agora sentimos na pele. A incerteza, a espera… A esperança que se mistura com receio… A necessidade de confiar em alguém!
Como dizia Viktor Frankl, na sua obra O Homem em Busca de um Sentido, “não há nada mais humano do que reconhecer que somos frágeis.” Talvez seja por isso que estes episódios, apesar de dolorosos, nos transformam. Tornam-nos mais atentos ao silêncio dos outros, mais sensíveis aos receios dos utentes, mais pacientes com as hesitações, mais generosos com o tempo que damos. Relembram-nos que a medicina não é apenas técnica, nem apenas ciência: é, acima de tudo, poder estar presente.
Uma vez ultrapassada a doença, quando finalmente regressamos ao consultório, já não somos exatamente os mesmos. Continuamos competentes, rigorosos e responsáveis. Mas trazemos connosco uma nova compreensão da fragilidade humana: a consciência de que a vida pode ficar em suspenso a qualquer momento, e que o nosso papel, enquanto médicos de família, é também ajudar a que essa suspensão seja menos solitária.
No fundo, talvez seja essa a principal lição a aprender neste processo: cuidar dos outros torna-se mais fácil quando reconhecemos que também nós precisamos de ser cuidados. E que, quando a vida fica em suspenso, a humanidade, a empatia e a escuta continuam a ser os melhores instrumentos terapêuticos ao nosso alcance.
Afinal, como recorda o médico e jornalista americano Atul Gawande, “o maior privilégio da medicina é estar ao lado de alguém nos seus momentos de maior vulnerabilidade.” E é esse privilégio que nos aproxima daquilo que constitui a essência da Medicina Geral e Familiar.
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