“A hipertensão arterial continua a ser o fator de risco mais prevalente”
Como promover a saúde cardiovascular” foi um dos temas abordados no 18.º Encontro Nacional de Internos de Medicina Interna (ENIMI) que decorreu, em junho, em Portimão. Em entrevista, Sofia Andraz, interna de formação específica de Cardiologia na ULS Algarve, alerta para a hipertensão arterial, mas também para o tabagismo.

No ENIMI falou sobre promoção da saúde cardiovascular. Quais os pontos-chave da sua intervenção?
Os pontos-chave abordados incluíram a importância da estratificação do risco cardiovascular, tanto em adultos aparentemente saudáveis como em doentes com patologia conhecida. Para isso, destaquei o uso do SCORE2 e SCORE2-OP, ferramentas validadas pela Sociedade Europeia de Cardiologia, que permitem estimar o risco de mortalidade e eventos cardiovasculares fatais e não fatais.
Outro ponto essencial foi a identificação e modificação dos principais fatores de risco, com destaque para a hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes mellitus, obesidade, tabagismo e sedentarismo.
Abordei também a necessidade de intervenções individualizadas, ajustadas ao perfil de risco, contexto clínico e preferências do doente. Além disso, referi a avaliação do score de cálcio coronário como um método útil para reclassificar o risco cardiovascular em doentes assintomáticos com risco intermédio.
Dos fatores de risco que mais contribuem para a doença cardiovascular, qual o mais preocupante?
Embora todos os fatores de risco clássicos desempenhem um papel relevante, o tabagismo surge como um dos mais preocupantes, tanto pela sua prevalência como pelo seu impacto direto e indireto na saúde cardiovascular. O tabaco é responsável por 50% das mortes evitáveis em fumadores, das quais metade estão associadas a doença aterosclerótica cardiovascular. Um fumador ao longo da vida tem 50% de probabilidade de morrer por causa do tabaco e perde, em média, 10 anos de vida.
Além do tabaco, a hipertensão arterial continua a ser o fator de risco mais prevalente a nível global e um dos menos controlados. O controlo eficaz da pressão arterial, mesmo em valores considerados ligeiramente elevados, pode ter um impacto significativo, especialmente em doentes com risco cardiovascular elevado.
“A fragilidade, o declínio funcional e o défice cognitivo limitam a aplicação de metas rígidas e a polimedicação requer revisão regular”
Qual o papel do internista na promoção da saúde cardiovascular?
O internista desempenha um papel fundamental na promoção da saúde cardiovascular, não só pela sua formação abrangente, mas também pela proximidade e continuidade no acompanhamento dos doentes. É frequentemente o primeiro médico a reconhecer fatores de risco cardiovasculares em doentes com múltiplas comorbilidades, mesmo quando a queixa principal não é diretamente relacionada com o sistema cardiovascular. A sua abordagem centrada na pessoa permite-lhe integrar as recomendações das guidelines com a realidade clínica, ajustando intervenções à idade, contexto social, preferências e capacidades do doente.
Para além da prescrição farmacológica e do controlo clínico, o internista é peça-chave na educação para a saúde, ajudando o doente a compreender o impacto do seu estilo de vida nas doenças cardiovasculares e a motivá-lo para mudanças comportamentais sustentadas. Também é essencial na articulação com equipas multidisciplinares e na coordenação de cuidados entre os vários níveis do sistema de saúde. Este papel integrador e continuado permite não só prevenir a progressão da doença cardiovascular, como também melhorar a qualidade de vida e reduzir eventos agudos e internamentos evitáveis.
Tendo em conta que o internista acompanha, essencialmente, doentes complexos e também idosos, existem especificidades a ter em conta na promoção da saúde cardiovascular destes grupos de doentes?
A promoção da saúde cardiovascular em doentes idosos ou com múltiplas patologias exige uma abordagem individualizada, centrada na prevenção de eventos incapacitantes e na manutenção da autonomia e qualidade de vida. A fragilidade, o declínio funcional e o défice cognitivo limitam a aplicação de metas rígidas e a polimedicação requer revisão regular.
Barreiras sociais e funcionais podem dificultar a adesão, sendo essencial adaptar a comunicação e envolver cuidadores. O internista, com o seu acompanhamento longitudinal, está numa posição privilegiada para ajustar intervenções às necessidades e prioridades do doente, promovendo não só a saúde cardiovascular, mas também o bem-estar e a dignidade.
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