Médico de Família

A confiança e a desumanização

A nossa desconfiança justifica o engano alheio.

La Rochefoucauld

A  desumanização

Muito (e bem) se tem escrito sobre a humanização dos cuidados de saúde numa perspetiva centrada no paciente/utente. Humanizar significa proporcionar um ambiente  emocionalmente acolhedor que envolva o ato terapêutico.

Mas não é da humanização neste sentido que se aborda o tema hoje. Falo da desumanização do médico. Não do médico desumano para com o doente, isto é, agente de desumanização. Também não no sentido do médico/ser humano vítima de abusos por parte de terceiros (utentes ou empregadores), tema também já abordado (e com propriedade e oportunidade) por outros. Proponho uma reflexão sobre a alienação (no sentido de perda, desperdício) da vertente intelectual do médico e não da vertente emocional. A competência emocional na relação terapêutica tem sido objeto de múltiplas abordagens e hoje é explícita e consensualmente aceite como fundamental. Mas não é disso que aqui se trata. Quanto às aptidões  de raciocínio, embora implicitamente ninguém se lembre de as contestar, estão sendo menosprezadas de forma paulatina e subtil. É uma forma bizarra de desumanização que se traduz  no desperdício das operacionalidade intelectual do médico e consequentemente da suas potencialidades, enquanto agente no processo terapêutico. Portanto, o médico desumanizado não é abordado nesta breve crónica enquanto a vítima mas sim como recurso desaproveitado.

E a desumanização do médico tem a sua génese na perda de confiança.

A confiança perdida

Lembro com alguma saudade os meus tempos de “P”, aquilo a que hoje se chama IAC e que está em vias de extinção (perspetiva arrepiante!). As noites de banco, à mingua de doentes, eram, por vezes, longas. A equipes médicas, entre as 21 e as 9 horas eram constituídas por um interno e um colega sénior. Um destes, o Dr. Chambel, insone nos seus sessenta e muitos anos, ia protelando, à moda de Sherazade, a hora de nos entregarmos aos cuidados de Morfeu. Pouco convincente, dizia de quando em vez: “Vá-se deitar, vá!”. Hesitávamos, mais pelo prazer de ouvir que por cortesia, e ele apanhava a deixa para mais uma história ou um comentário. Estas conversas eram e são uma forma de ensino informal que convirá não descurar. Para além da transmissão de conhecimentos técnicos, são um veículo e aprendizagem, digamos, epistemológica.  Para além dos ensinamentos que a memória conscientemente evoca, outros haverá que inconscientemente vão modelar as futuras atitudes e valores do jovem médico. Um dia acompanhei o Dr. Chambel  numa prova de … águas. Nem mais: em vez de tascas e tabernas visitámos as múltiplas fontes e fontenários da serra de S. Mamede! Terá sido nesse dia que me disse: “Sabe, Acácio, hoje o doente não tem confiança no médico” (estávamos nos inícios da década de oitenta). “Você salva literalmente e de forma  evidente a vida dum doente grave. Semanas depois, perante uma situação banal desse mesmo doente, vê-se confrontado com sugestões terapêuticas e de pedidos de ‘exames’. Confiam mais no resultado do exame que no seu juízo clinico”.

Ora, esta desconfiança advém dos avanços tecnológicos com a confiança a ser deslocalizada do médico (pessoa) para o ECD (máquina). Convenhamos que esta mudança é compreensível. Quem não for do metier desconhece que  o diagnóstico se faz através (i) dos sentidos que “tocam” o real e (ii) do cérebro que “entende” o real. Ignora ainda que a  miríade de ECD, sendo excelentes substitutos dos órgãos dos sentidos, não substituem o processo de interpretação dos signos pelos que o “real” escreve. Os notáveis progressos da tecnologia no domínio da semiologia levam o cidadão comum a acreditar na omnipotência dos ECD, equívoco que é, repito, perfeitamente natural para quem não esteja por dentro do processo diagnóstico. 

Terá, pois, sido esta desumanização, resultante da hipervalorização da máquina face ao humano, que levou inconscientemente à perda de confiança no médico.

Paradoxos

Curiosamente, é o utilizador dos cuidados de saúde o maior perdedor.

Paradoxal é o facto de à medida que cresce a exigência na humanização da relação terapeuta-paciente/utente, por via duma maior participação amigdalina, se está remetendo, de forma inconsciente, a intervenção pré-frontal para um papel residual. Quer dizer: A relação médico doente evoluiu dum desequilíbrio em que a emoção era mitigada, para um novo desequilíbrio em que a vertente intelectual é atrofiada. Isto, com ficou dito, devido à ilusão que os “exames” substituem a inteligência do médico.

Num tempo em que a medicina centrada no doente se está confundindo com a medicina centrada nas fantasias do doente/utente e que o empoderamente se faz à revelia da capacitação, corremos o risco do engano. Engano no duplo sentido: o engano induzido pelo ECD pedido sem critério e interpretado de forma descontextualizada, e o engano do médico que confunde cuidados centrados no doente, com cuidados centrados nos mitos e crenças em voga, que é o mesmo que dizer na MBE: medicina baseada nos exames.

Outro paradoxo, corolário do acima citado, reside no facto da excessiva importância atribuída aos ECD diluir a emoção da relação médico-doente por centrar a atenção mais no exame que no doente/utente, desumanizando-a.

Compete aos profissionais de saúde, nomeadamente aos médicos, esclarecer sobre a real importância e limitações dos ECD e seu lugar na metodologia semiológica. É urgente incrementar  a literacia no domínio da saúde, ou seja investir na capacitação do cidadão utilizador (ou potencialmente utilizador) dos cuidados de saúde.

ler mais

RECENTES

ler mais