
Assistente Graduado Sénior de MGF (Reformado); Ex-Professor Auxiliar Convidado da NOVA Medical School, Universidade Nova de Lisboa
A bem da saúde é urgente “descomprimir”
Nesta sociedade da informação e neoliberal o objetivo é o consumo. O consumo é o ritual da religião do consumismo. Os evangelistas desta religião são os influenciadores (influencers) que proliferam com o único objetivo de levar a palavra dos deuses (marcas) aos leigos consumidores. Eles prometem o reino do bem-estar, seguindo modelos e ideais inalcançáveis.
A saúde é, e sempre foi, profundamente condicionada pelas religiões e no caso do consumismo não foge à regra. Tal como a escola sociológica de Frankfurt criou o conceito de “indústria cultural”, hoje temos “a indústria da saúde”. Hesito entre lhe chamar “indústria de saúde ou de doença”, mas fico-me pela “indústria da saúde” (IS). A IS tem os seus influenciadores condicionados pelas indústrias de serviços, de dispositivos e de produtos farmacêuticos.
Quero desde já deixar claro que muito devemos a estas indústrias, mas é importante limitá-las àquilo que elas nos podem dar e evitar que o seu objetivo de lucro seja o primordial em secundarização dos ganhos em saúde. A Indústria existe para ter lucros, mas as instituições de saúde existem para gerar ganhos em saúde e estes dois interesses, por vezes, são antagónicos.
Os influenciadores de saúde comportam-se como fossem salvadores, prometendo a eternidade, e ameaçam quem não cumpre com a doença, a incapacidade ou a morte. Vendem a crença que estes acidentes só acontecem se não seguirem o caminho que lhes apontam. A expressão máxima do consumismo de saúde é a frase, prenhe de autoridade, “isto é para tomar para toda a vida” dita por quem se assume possuidor da certeza e verdade absolutas e definitivas.
Todos os simpósios e formações falam sobre a prescrição, nunca falam da desprescrição. Dizem quando iniciar, nunca quando retirar. Por exemplo, compreende-se que uma estatina seja prescrita aos 50 anos numa hipercolesterolemia, mas quando se deve suspender? Faz algum sentido, alguém que nunca teve um acidente cardiovascular até aos 80 anos, continuar com a estatina? E se ele tiver Alzheimer, deve continuar?
A frequência com que doentes tomam antidepressivos e ansiolíticos há mais de 5 ou 10 anos é confrangedora. Esquecemo-nos que estes medicamentos retiram o prazer de gozar a vida, para além dos efeitos colaterais inerentes. Se uma pessoa tiver uma fratura óssea, por exemplo, da tíbia, coloca uma tala que após a formação do calo ósseo será retirada. Muito frequentemente quando se retira a tala, vai sentir fraqueza muscular e alguma dificuldade na marcha, mas não é por isso que não retira a tala, nem que para isso tenha de fazer fisioterapia.
Um antidepressivo ou ansiolítico deve ser entendido como uma tala que se usa para as fraturas da alma. Quando se retira é natural que a pessoa sinta dificuldade e, aqui, importa recorrer a outras terapias, como a psicoterapia, que na maior parte das situações deve começar antes de iniciar a retirada.
Os exemplos de medicações que se iniciaram e nunca foram retiradas são muitos mais: Inibidores da Bomba de Protões prescritos e vendidos como, mentirosamente, “protetores do estômago”.
Na obsessão de manter a medicação parece que, médicos e pacientes, se comportam como o apostador de lotaria que joga sempre com o mesmo número e, apesar de já apostar nele há vários anos, não desiste, para não se arrepender se ele sair.
Ora, também este medo de desprescrever leva a um comportamento minimizador do arrependimento que importa estarmos conscientes da sua existência e, racional e eticamente, decidirmos retirar medicação inútil, porque acima de tudo está o bem-estar do doente.
Por isso, é urgente em saúde descomprimir no sentido de descontrair e tranquilizar para que as pessoas possam usufruir a vida sem viverem o terror instilado por vendedores de “banha da cobra” (verdeiros terroristas, porque aterrorizam), cujo único objetivo é vender. Noutro sentido do descomprimir é retirar comprimidos inúteis ou mesmo prejudiciais, mas que apenas o medo ou a irracionalidade terapêutica justificam o seu persistente uso.
Vamos descomprimir a saúde.
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