ICAD lança programa de neuroreabilitação para pessoas com dependências
A coordenadora do projeto, Susana Rodrigues, disse à Lusa que o objetivo é integrar a dimensão neurocognitiva no tratamento das dependências, reconhecendo que “a recuperação vai, muitas vezes, para além apenas da interrupção dos consumos”.

O Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) lança na sexta-feira, no Porto, um programa de neurorreabilitação para pessoas com dependências de álcool e substâncias psicoativas, uma intervenção focada na reabilitação para o quotidiano. Com início na fase de internamento e prosseguindo após a alta, o NeuroCAD vai funcionar no antigo hospital de Matosinhos, onde atualmente já se encontra a Unidade de Desabituação do Norte, junto à Consulta Especializada do Centro de Respostas Integradas (CRI) do Porto Ocidental do ICAD.
A coordenadora do projeto, Susana Rodrigues, disse à Lusa que o objetivo é integrar a dimensão neurocognitiva no tratamento das dependências, reconhecendo que “a recuperação vai, muitas vezes, para além apenas da interrupção dos consumos”. “Regra geral, quando se fala das dependências, falamos de consumos, de habituação e prevenção da recaída, mas há uma dimensão que nem sempre tem a atenção necessária, que é o impacto que o consumo das substâncias pode ter no funcionamento cognitivo. Interromper os consumos é fundamental, mas para algumas pessoas recuperar também implica desenvolver ou recuperar capacidades que lhes permitiam sustentar mudanças no dia-a-dia”, disse Susana Rodrigues.
Destacando a colaboração da neuropsicóloga Sónia Rodrigues, bem como da equipa de enfermagem especialista em saúde mental, Susana Rodrigues explicou que o programa pretende “não limitar as intervenções à gestão da abstinência, mas também prestar uma maior atenção a possíveis dificuldades cognitivas que possam persistir após a desintoxicação”.
Partindo da convicção de que “podem persistir dificuldades na atenção, na memória, no planeamento, na tomada de decisão, que podem interferir com o funcionamento quotidiano e com a própria adesão ao tratamento, ou na capacidade de construir um projeto de vida”, o NeuroCAD intervém também após a desintoxicação e a desabituação. Numa primeira fase, ainda no internamento, é feito um rastreio cognitivo que, na prática, consiste numa escala com determinados parâmetros que ajudam a detetar alterações na memória e atenção, entre outras.
Após a alta, segue-se uma avaliação neuropsicológica mais aprofundada e as intervenções desenrolam-se em grupo através de um “jogo terapêutico”, o Trisquel que já é usado em Espanha, uma espécie de “Trivial Pursuit” adaptado e organizado por profissionais de saúde. “É uma intervenção para estimular as capacidades cognitivas, da atenção, até da regulação emocional, de memória… O ideal é que cada grupo tenha seis ou sete pessoas”, descreveu a coordenadora.
Desenvolvido pela Unidade de Desabituação do Norte em parceria com os três CRI do Porto – CRI Porto Central, CRI Porto Ocidental e CRI Porto Oriental – o NeuroCAD desenrolar-se-á em regime de ambulatório, duas vezes por semana, ao longo de três meses. A equipa junta médicos, neuropsicólogos, enfermeiros especialistas em saúde mental e assistentes técnicos. Para sexta-feira, pelas 12:00, está agendada uma cerimónia pública de apresentação que deverá contar com a presença da secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, bem como da presidente do ICAD, Joana Teixeira.
SO/LUSA
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