5 Nov, 2026

População que mais precisa de cuidados de saúde é a menos acompanhada, indica estudo

O estudo “Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, acesso aos cuidados”, promovido pela Ordem dos Médicos, identificou três perfis populacionais distintos, com diferentes necessidades de saúde, disse à agência Lusa o coordenador da investigação, Tiago Correia.

População que mais precisa de cuidados de saúde é a menos acompanhada, indica estudo

Quase metade dos inquiridos num estudo hoje divulgado integra um perfil de maior vulnerabilidade na saúde, marcado por pior saúde percebida, maior carga de doença e mais dificuldades em manter um acompanhamento continuado, apesar da elevada necessidade de cuidados. O estudo “Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, acesso aos cuidados”, promovido pela Ordem dos Médicos, identificou três perfis populacionais distintos, com diferentes necessidades de saúde, disse à agência Lusa o coordenador da investigação, Tiago Correia.

Designados por “Vulneráveis”, “Episódicos” e “Integrados”, os perfis distinguem-se pela forma como combinam o estado de saúde, o acesso e a utilização dos serviços, a continuidade dos cuidados e as práticas de prevenção. O grupo mais vulnerável, que representa 48% dos inquiridos, caracteriza-se por uma pior perceção do estado de saúde e uma maior carga de doença.

É também constituído por pessoas mais velhas, que recorrem mais aos serviços de saúde por necessidade, mas revelam maiores dificuldades em manter a continuidade do acompanhamento, explicou o investigador. “São as pessoas que mais precisam e as pessoas que têm maior dificuldade de manter o circuito no sistema de saúde à luz das suas necessidades”, disse o coordenador do estudo realizado pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, através do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho em Saúde

Em contraste, 18% dos participantes integram o perfil dos “integrados”, caracterizado por uma saúde percebida intermédia, melhor acesso aos serviços, utilização regular dos cuidados, continuidade forte no acompanhamento e melhores práticas preventivas. Os restantes 34% pertencem ao grupo dos “episódicos”, constituído por pessoas mais jovens, com melhor perceção do estado de saúde e menor utilização dos serviços, mas também uma continuidade fraca no acompanhamento e práticas de prevenção irregulares, exigindo estratégias ajustadas.

O estudo revela também “experiências contrastantes” no acesso aos cuidados de saúde. Enquanto 40% consideram fácil ou muito fácil o acesso aos serviços do SNS na sua área de residência, 36,3% classificam-no como difícil ou muito difícil. No setor privado, a perceção é mais favorável, com 63,5% a considerarem o acesso fácil ou muito fácil e apenas 11,4% difícil ou muito difícil. Os valores refletem a perceção dos inquiridos, não permitindo uma comparação direta entre o desempenho dos dois setores, uma vez que muitos utentes recorrem a ambos. Para Tiago Correia, esta diferença merece atenção, num contexto em que os cidadãos valorizam a rapidez e a confiança na procura de cuidados.

O investigador relaciona ainda estas perceções com os tempos máximos de resposta garantidos (TMRG). “Se percebermos que efetivamente para consultas e cirurgias estes tempos máximos estão a ser ultrapassados e a percentagem de atividade além do tempo máximo está a aumentar, é legítimo assumir que de facto existem barreiras na acessibilidade dos cuidados de saúde e isso faz com que as pessoas percecionem o acesso no SNS pior do que o que acontece no setor privado neste momento”, comentou.

Outra das conclusões do estudo, que decorreu entre setembro e novembro de 2025 com base em 700 entrevistas telefónicas a adultos de todo o país, através de uma amostra representativa e estratificada por região, aponta que 29,9% dos inquiridos afirmaram não ter recebido cuidados num prazo considerado adequando por dificuldades de marcação ou listas de espera. Houve ainda 6,7% que disseram não ter realizado consultas, exames ou tratamentos por razões financeiras e 4,4% admitiram não ter comprado medicamentos prescritos devido ao custo.

Para Tiago Correia, mesmo quando os valores representam uma parcela minoritária da população, importa perceber como se distribuem pelos diferentes grupos. Questionado sobre que recomendação faria ao Ministério da Saúde, afirmou: “Que começássemos a definir as políticas de saúde cada vez mais pela realidade social do país, olhando para os vários territórios e para a composição sociodemográfica dos territórios, porque as necessidades das populações não são iguais”, afirmou.

Deixou também um apelo para que “não se desconsidere a perceção das pessoas de que não estão a aceder aos cuidados de que precisam, ou que merecem, ou que têm uma expectativa de receber”, porque, alertou, “isso alimenta o descrédito, e o descrédito alimenta a insatisfação, e a insatisfação alimenta a falta de coesão social e política”.

Portugueses valorizam “Uma Só Saúde” mas há ainda um longo caminho a percorrer

No estudo ficou também demonstrado que a  maioria dos portugueses reconhece a importância da articulação entre saúde humana, animal e ambiental, mas persistem lacunas de conhecimento sobre antibióticos e segurança alimentar. Os resultados do estudo promovido pela Ordem dos Médicos revelam que 83,9% dos inquiridos consideram essencial a cooperação entre médicos, veterinários, especialistas ambientais e decisores políticos para prevenir surtos e responder a ameaças à saúde pública.

Apesar da valorização do conceito pela população, os dados revelam comportamentos e perceções que o coordenador científico do estudo, Tiago Correia, considera preocupantes. O estudo concluiu que 12% dos participantes admitiram ter tomado antibióticos sem prescrição médica e que “entre um quarto e um quinto” discordam que a utilização de antibióticos na produção animal possa ter implicações para a saúde humana, enquanto quase 20% afirmam nem saber que essa relação existe. “Se juntarmos estas duas parcelas, praticamente metade das pessoas ou não sabe das implicações dos antibióticos nas explorações agropecuárias ou acham que isso não tem relevância para a sua saúde”, vincou o investigador do estudo “Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, acesso aos cuidados”.

Outro dos resultados mostra que cerca de um quinto das pessoas que consomem carne proveniente de explorações próprias ou de familiares afirma não conhecer as condições higiossanitárias em que os animais foram criados ou abatidos.

Para o coordenador científico, os resultados evidenciam que ainda há “muito caminho” a fazer em relação à integração da saúde humana, animal e ambiental, mas também do ponto de vista da saúde pública e da literacia sobre os riscos para as pessoas. “Não tem a ver só com a nossa saúde. Tem a ver com o modo como nós produzimos alimentos, hortícolas, animais, como é que fazemos escolhas informadas, por exemplo, no supermercado”, salientou.

Tiago Correia defendeu ainda que a discussão sobre saúde não se deve limitar ao acesso aos cuidados médicos, devendo incluir igualmente todos estes fatores relacionados com a qualidade do ambiente, da alimentação e dos comportamentos que influenciam o risco de doença. “Quando há problemas de saúde, é a questão do acesso que nos preocupa. Se temos ou não temos médico de família, mas tudo isto está a montante e precisamos de ter a certeza de que aquilo que comemos, aquilo que bebemos, o sítio onde vivemos tem qualidade e nos permite ter saúde, porque caso contrário estaremos doentes e se estamos doentes precisamos de cuidados e se precisamos de cuidados, lá vem toda a pressão sobre o sistema de saúde”, alertou.

SO/LUSA

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