4 Nov, 2026

“A partilha de conhecimento prolonga-se entre edições”

À 20.ª edição, o Update em Medicina chega com um percurso marcado pela proximidade à comunidade médica, pela diversificação dos formatos de formação e pelo incentivo à investigação. O projeto quer agora prolongar essa ligação ao longo de todo o ano, através do Update 365. Em entrevista, Arminda Veiga, membro da Comissão Organizadora, revisita a evolução do encontro e aponta os desafios para o futuro.

“A partilha de conhecimento prolonga-se entre edições”

O Update em Medicina prepara-se para celebrar a sua 20.ª edição. Olhando para o percurso destas duas décadas, quais considera terem sido os principais marcos na evolução do evento e o que explica a sua continuidade e afirmação junto da comunidade médica?
Quando olho para este percurso, penso primeiro na forma como o encontro foi crescendo e na relação que fomos construindo com os colegas. Há médicos que nos acompanham desde as primeiras edições e, ao longo dos anos, foram chegando novos participantes, muitos ainda em formação. Conseguimos crescer mantendo a proximidade e o espaço para conversar e discutir, algo que continua a ser muito importante para nós.

À medida que o Update cresceu, fomos também diversificando a forma de fazer formação. Às sessões de atualização juntámos cursos, workshops, discussão de casos clínicos e mais momentos de interação. A preocupação tem sido sempre que quem venha ao Update possa esclarecer dúvidas, partilhar experiências e levar consigo conhecimentos que façam a diferença na sua prática clínica.

Foi também ganhando espaço o incentivo à investigação e à produção científica dos médicos. A apresentação de trabalhos, os prémios de melhor comunicação oral em cinco categorias e os Prémios Servier de Hipertensão Arterial, InfosaúdeMGF e Fratelli Tutti fazem parte desse caminho. Queremos estimular esse trabalho e proporcionar oportunidades para apresentar e discutir os resultados.

Em 2022, a certificação DGERT assinalou outro passo, com a consolidação dos nossos processos de organização e qualidade enquanto entidade formadora.

Mais recentemente, em 2026, nasceu o Update 365. Considero-o um marco muito importante, porque traduz a vontade de dar continuidade à formação e à ligação com os colegas ao longo de todo o ano. O congresso continua a ser o grande momento de encontro, mas a partilha de conhecimento prolonga-se entre edições.

Penso que a continuidade do Update se explica por esta evolução, feita com atenção ao que os colegas nos dizem e ao que precisam na sua prática. O facto de tantos regressarem e de novos médicos continuarem a juntar-se mostra-nos que a formação que propomos continua a fazer sentido.

 

Ao longo dos anos, o Update tem procurado inovar não apenas nos conteúdos, mas também nos formatos de aprendizagem. Que transformações destacaria e de que forma têm contribuído para tornar a formação mais dinâmica, participativa e próxima da prática clínica?
A interatividade esteve na base do Update desde o início, sobretudo através de casos clínicos construídos especificamente para a formação. À medida que o caso avança, colocamos perguntas aos participantes e, a partir das respostas, discutimos as opções e introduzimos a informação que queremos transmitir. Isso permite trabalhar o raciocínio clínico e perceber onde estão as dúvidas, envolvendo os colegas na discussão.

A partir dessa base, fomos alargando os formatos. Organizámos cursos práticos, alguns em parceria com outras entidades, como os de Suporte Básico e Avançado de Vida, e introduzimos masterclasses e debates. Cada formato permite trabalhar de maneira diferente: treinar uma competência, aprofundar um tema ou discutir abordagens e decisões clínicas.

Mais recentemente, enquanto entidade formadora certificada pela DGERT, passámos a oferecer cursos de maior duração, com componentes síncronas e assíncronas, que permitem aprofundar conhecimentos e desenvolver competências aplicáveis à prática profissional.

O que une estas propostas é a preocupação de aproximar a formação das decisões que os médicos têm de tomar no dia a dia. Os formatos foram-se diversificando, mas a participação dos colegas e a aplicação à prática clínica continuam a orientar o que fazemos.

 

Enquanto membro da Comissão Organizadora, como descreve o trabalho de preparação de cada edição? Que critérios orientam a seleção dos temas e dos especialistas convidados e como procuram responder às necessidades formativas dos médicos de família?
A preparação de cada edição é um trabalho de muitos meses, que envolve a Comissão Organizadora e a Comissão Científica. Além de construir o programa, é preciso escolher os formatos mais adequados para cada tema e cuidar de todos os aspetos da organização que permitem que a formação decorra bem.

Na escolha dos temas, a preocupação é responder às necessidades dos médicos de família: os problemas que encontram com mais frequência na consulta, as dúvidas que surgem na abordagem dos doentes e as novidades científicas que têm implicações na prática. Procuramos um programa atualizado e equilibrado, tendo em conta a diversidade de áreas que a Medicina Geral e Familiar abrange.

Convidamos especialistas pelo seu conhecimento e experiência, mas também pela capacidade de transmitir a informação de forma clara e de a discutir com os colegas. Queremos que os participantes possam colocar as suas dúvidas e sair das sessões com respostas que os ajudem nas decisões do dia a dia.

 

Apesar de se dirigir sobretudo aos médicos de Medicina Geral e Familiar, o Update reúne especialistas de diferentes áreas. Qual é a importância desta abordagem multidisciplinar e de que forma pode contribuir para uma maior articulação entre os cuidados de saúde primários e hospitalares?
A Medicina Geral e Familiar está no centro do Update, mas o programa é construído também com o contributo de outras especialidades, que colaboram na preparação da reunião.

Esta multidisciplinaridade permite-nos olhar para os mesmos problemas a partir de diferentes perspetivas e perceber como são abordados nas consultas de Medicina Geral e Familiar e nas consultas hospitalares. Este conhecimento mútuo ajuda-nos a compreender melhor a forma de trabalhar de cada especialidade, facilitando a colaboração entre todos.

Pensamos que esta partilha ajuda a melhorar a comunicação e a articulação entre os cuidados de saúde primários e hospitalares, contribuindo para uma maior continuidade no acompanhamento dos doentes.

 

A formação médica contínua enfrenta hoje o desafio de acompanhar um ritmo de produção científica cada vez mais acelerado. Como surgiu o Update 365 e de que forma pretende complementar o congresso, mantendo a atualização científica presente ao longo de todo o ano?
O Update 365 surgiu da vontade de criar um projeto de formação contínua que ajude os médicos a acompanhar as novidades científicas com impacto na prática clínica.

Perante a quantidade de informação publicada, procuramos selecionar o que é relevante e trabalhá-lo: o que traz de novo este estudo ou esta recomendação? O que muda em relação ao que sabíamos? E como se traduz essa mudança na abordagem dos nossos doentes?

É esse trabalho de análise e interpretação que queremos que distinga o Update 365. Mais do que dar notícia de uma publicação, queremos dar-lhe o nosso contributo, explicando as suas implicações e ajudando os colegas a integrar o novo conhecimento nas decisões do dia a dia. É uma proposta de formação contínua com identidade própria, presente ao longo de todo o ano.

 

Enquanto cardiologista, e tendo em conta a crescente importância da prevenção e da abordagem integrada do risco cardiovascular, que papel considera que iniciativas como o Update podem desempenhar na aproximação entre especialidades e na melhoria dos cuidados prestados aos doentes?
Enquanto cardiologista, vejo muitas vezes como os fatores de risco e as várias doenças se cruzam no mesmo doente. A prevenção cardiovascular exige, por isso, uma visão global e uma boa articulação entre os médicos que o acompanham, na qual a Medicina Geral e Familiar tem um papel central.

Iniciativas como o Update permitem discutir em conjunto situações que todos encontramos na prática, perceber como cada especialidade as aborda e esclarecer dúvidas sobre quando atuar, quando referenciar e como dar continuidade ao acompanhamento.

Acredito que essa proximidade facilita o trabalho entre colegas e ajuda a tornar as decisões mais coerentes ao longo do percurso do doente. É aí que a formação pode fazer a diferença: quando o que discutimos se traduz numa melhor prevenção e em cuidados mais articulados.

 

Depois de duas décadas de atividade, que desafios se colocam ao futuro do Update em Medicina e como gostaria de ver o projeto evoluir nos próximos anos?
Um dos principais desafios é continuar a responder às necessidades dos médicos, acompanhando a evolução do conhecimento científico e das formas de aprender. Gostaria de ver o Update crescer como projeto de formação contínua, através do congresso, do Update 365 e dos cursos da Academia.

Uma das ideias para o futuro é criar espaços de partilha, como fóruns de discussão clínica, onde os médicos possam colocar dúvidas, partilhar experiências e discutir abordagens com a equipa do Update e com os outros colegas do grupo. Seria uma forma de promover a aprendizagem entre pares e a construção conjunta de conhecimento.

Ao fim de duas décadas, gostaria que o Update continuasse a evoluir com os colegas, mantendo o rigor científico, a participação e a ligação à prática clínica que sempre orientaram o projeto.

Sílvia Malheiro

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