Projeto universitário Macau-Lisboa quer formar médicos para uma realidade dominada pela IA

Embora a aposta na IA seja central no novo currículo do curso conjunto entre a FMUL e Macau, o diretor da FMUL, João Eurico da Fonseca sublinhou que as competências humanas continuarão a ser essenciais na formação médica.

Projeto universitário Macau-Lisboa quer formar médicos para uma realidade dominada pela IA

Formar médicos preparados para uma realidade transformada pela IA é o objetivo do curso conjunto da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) com a futura Faculdade de Medicina da Universidade de Macau (UM).

Durante o 1.º Simpósio Conjunto entre as faculdades de medicina da UM e da UL, realizado em Macau, João Eurico Fonseca, diretor da FMUL, considerou que o principal desafio do novo projeto passa por preparar profissionais para um sistema de saúde cujo futuro ainda é incerto.

“Temos um problema em todo o mundo nas escolas médicas. A medicina está a evoluir muito mais depressa do que as faculdades de medicina. Estamos sempre a tentar alcançar essa evolução”, afirmou.

Segundo o responsável, a nova escola médica deve ser concebida já a pensar nas necessidades da próxima década, quando os primeiros diplomados iniciarem a atividade profissional.

“O desafio é educar médicos para uma medicina que, na verdade, não sabemos exatamente como será quando eles forem médicos”, afirmou. “Se tudo correr bem, em 2028 teremos os primeiros estudantes e, em 2034, os primeiros médicos. O que vamos precisar nessa altura?”, questionou?

Fonseca apontou quatro grandes fatores que estão a transformar a prática clínica: a IA e a medicina digital, os avanços da medicina de precisão e das terapias avançadas, o envelhecimento populacional e a crescente pressão sobre os sistemas de saúde.

“Na medicina, a IA é ainda mais relevante do que no quotidiano”, afirmou o também diretor do Serviço de Reumatologia da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, defendendo que os futuros médicos terão de compreender tanto o potencial como os limites destas tecnologias.

O diretor da Faculdade de Medicina da UL destacou ainda o impacto do aumento da esperança média de vida, que em Macau ronda os 84 anos, uma das mais elevadas do mundo, associado ao crescimento do volume de doenças crónicas e de múltiplas patologias que exigem tratamento. “Isso cria uma enorme pressão sobre os sistemas de saúde. É o que acontece em todo o mundo”, disse, referindo como exemplos o Hospital Conde de São Januário, em Macau, e o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Embora a aposta em tecnologia e inovação seja central no novo currículo, Fonseca sublinhou que as competências humanas continuarão a ser essenciais na formação médica. “Ninguém aceitará uma prescrição, um diagnóstico ou uma cirurgia se não houver envolvimento humano”, afirmou. “Se não sentirem empatia e compaixão, essa relação não funciona.”

Outra prioridade será estimular a capacidade de investigação e pensamento crítico dos estudantes. “Queremos que façam melhores perguntas”, afirmou. “Queremos que sejam capazes de avaliar criticamente a evidência científica e compreender o percurso que vai da descoberta ao benefício para o doente.”

Fonseca acrescentou que o modelo pedagógico prevê contacto precoce com doentes, utilização intensiva de simulação clínica e uma estreita articulação entre ensino, investigação e prestação de cuidados de saúde.

“Não existe espaço para o Dr. House”, afirmou, numa referência à popular série televisiva. “Na realidade, não temos médicos que sabem tudo. Temos equipas que trabalham em conjunto e isso tem de ser incutido desde cedo nos jovens médicos.”

O responsável destacou ainda o potencial da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau como ambiente privilegiado para a formação médica e para a investigação biomédica. “Estamos na Grande Baía. São 80 milhões de pessoas, inovação produzida todos os dias, patentes em todas as áreas tecnológicas que possamos imaginar”, afirmou. “Esta faculdade fica dentro de um ambiente fantástico.”

Segundo Fonseca, a colaboração entre Lisboa e Macau deverá estender-se muito para além do ensino, através da mobilidade de docentes, investigação conjunta e desenvolvimento de novos programas académicos. “Já existem três projetos de investigação a decorrer”, revelou.

SO/LUSA

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