Gerir para Sustentar: o desafio estratégico da Gestão em Saúde
Professora Coordenadora da Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, psicóloga e mestre em Gestão de Recursos, especialista em Enfermagem de Reabilitação. Cocoordenadora do livro "Gestão em Saúde" (LIDEL)
2 Out, 2026

Gerir para Sustentar: o desafio estratégico da Gestão em Saúde

Atualmente, um dos principais desafios da gestão em saúde é a sustentabilidade, enquanto eixo estruturante que exige uma abordagem sistémica, capaz de conciliar qualidade assistencial, eficiência económica, equidade social e responsabilidade ambiental. Esta perspetiva associa a continuidade e a qualidade dos cuidados à capacidade de responder a necessidades crescentes com recursos limitados, articulando governação, financiamento, organização dos cuidados, liderança, inovação e criação de valor.

Gerir organizações de saúde, como se reflete no livro Gestão em Saúde – Perspetivas Atuais e Futuras, implica responder a necessidades crescentes num contexto de recursos finitos, elevada complexidade organizacional, acelerada inovação tecnológica, transformação demográfica e epidemiológica. Gerir significa, assim, fazer escolhas e definir prioridades, para que os recursos disponíveis se traduzam em melhores resultados em saúde. As decisões tomadas no presente condicionam não apenas a qualidade e a eficiência dos cuidados atuais, mas também a capacidade de resposta às necessidades futuras.

O verdadeiro desafio consiste em utilizar os recursos de forma responsável, avaliando não apenas quanto se gasta, mas, sobretudo, o valor produzido para a pessoa e para a sociedade. A contratualização orientada para resultados e metodologias de melhoria contínua, como o Lean, podem contribuir para reduzir desperdícios, simplificar processos e libertar recursos para atividades que acrescentem efetivo valor em saúde.

Contudo, nenhum sistema será sustentável se depender permanentemente da sobrecarga dos seus profissionais. Liderar em saúde implica reconhecer que competência, motivação, comunicação, trabalho em equipa e bem-estar profissional influenciam a qualidade e a segurança dos cuidados. Investir no capital humano não deve, por isso, ser encarado apenas como um custo, mas como condição essencial para construir organizações resilientes, capazes de aprender, inovar e adaptar-se à mudança.

Também a organização dos cuidados exige ser repensada. A fragmentação entre cuidados de saúde primários, hospitais, cuidados continuados, saúde pública e comunidade favorece duplicações e ineficiências. Uma gestão sustentável deve promover integração, prevenção e proximidade, colocando a pessoa no centro das decisões. A transformação digital pode apoiar este processo através da partilha de informação e de decisões baseadas em dados; contudo, a tecnologia apenas cria valor quando responde a necessidades reais e contribui efetivamente para melhores cuidados.

Gerir para a sustentabilidade é, portanto, mais do que “fazer mais com menos”: é fazer melhor, escolher melhor e avaliar os resultados dessas escolhas. A sustentabilidade económica, social, humana e ambiental deve integrar uma visão comum da gestão, orientada para o valor e para o futuro. Num sistema de saúde cada vez mais complexo, a sustentabilidade não depende apenas dos recursos existentes, mas sobretudo da responsabilidade, inteligência e visão com que decidimos geri-los.

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