
Ana Carolina Teixeira (Médica de Família); João Rocha Neves (Cirurgião Vascular); Sérgio Seco Nabais (Advogado)
Mudar o Paradigma da Dor: Uma Urgência Médica e Social – lançamento de livro
Diz o médico paliativista Hugo Ribeiro que “a dor muda quem somos”. Quem já conviveu de perto com a dor crónica, ou acompanhou um familiar nessa provação diária, sabe bem que a afirmação não tem ponta de exagero.
A dor persistente não drena apenas as forças físicas; ela corrói a identidade, a autonomia e a dignidade humana. É precisamente sobre este desafio titânico que se debruça o manual “Abordar a Dor: fundamentos e inovação no tratamento da dor” uma obra de coordenação científica de Marília Dourado e Hugo Ribeiro que urge ler e, acima de tudo, debater.
O panorama nacional é alarmante: estima-se que cerca de 40% dos portugueses viva com dor crónica. Mais grave ainda é perceber que, em grande parte destes casos, o sofrimento é desvalorizado ou incorretamente gerido.
Num sistema focado na patologia aguda e na resposta mecânica da receita médica, o doente crónico fica frequentemente entregue a uma solidão incompreendida.
Na abordagem farmacológica da dor, vivemos atualmente numa perigosa política de extremos. O pêndulo oscila de forma desequilibrada: por um lado, assiste-se a um medo quase paralisante dos efeitos adversos — um fantasma clínico que, importa sublinhar, pode ser contido, evitado ou controlado. Por outro lado, resvala-se para o oposto simétrico, com a prescrição de doses exageradas de opióides ad initium a doentes que nunca antes tomaram este tipo de fármaco.
Esta polarização entre a negligência por receio e a imprudência por excesso penaliza gravemente quem sofre. O grande mérito de um livro com esta robustez científica é o potencial de nos resgatar a todos destes extremos e unir-nos em redor da evidência, da moderação e do bom senso.
Tratar a dor não pode ser um mero exercício automático de prescrição. Exige uma abordagem holística e multidisciplinar, cruzando saberes entre diferentes especialistas — desde a medicina familiar à psicologia, passando pelos cuidados paliativos.
É por isso que Hugo Ribeiro tem sido uma voz crítica e necessária: é incompreensível que a dor, a geriatria e os cuidados paliativos ainda não assumam um papel obrigatório e central em todos os currículos de formação médica no nosso país.
Aliviar o sofrimento não é um “extra” de empatia; é o cerne da responsabilidade clínica. Abordar a Dor transcende as fronteiras de um manual técnico; funciona como um manifesto humanista.
Olhar para a dor de forma integrada é uma decisão civilizacional. Enquanto a medicina não descentrar o seu foco da mera sobrevivência biológica para abraçar a qualidade da vida, continuaremos a falhar aos milhares de portugueses que sofrem em silêncio. Esta obra abre um caminho luminoso de equilíbrio e sensibilidade. Resta saber se haverá a coragem de o trilhar.





