
Joana Brandão Médica Interna de MGF na USF Marco, ULS Tâmega e Sousa Pós-Graduada em Medicina da Dor - FMUC Doutoranda em Ciências Médicas ICBAS Andreia Fernandes Assistente Hospitalar em Anestesiologia Unidade Multidisciplinar de Dor Crónica da ULS Tâmega e Sousa Pós-Graduada em Medicina da Dor - FMUP
Dor – qual o papel da MGF na abordagem do doente com dor? Quando referenciar para uma Unidade de Tratamento de Dor?
A dor crónica afeta um em cada três adultos portugueses e representa um grave problema de saúde pública e de gastos em saúde. Na maioria das vezes, é o médico de família o responsável pela gestão da dor destes utentes. Um estudo epidemiológico realizado em Portugal mostrou que cerca de um terço dos doentes com dor crónica sentia que o controlo da sua sintomatologia não era adequado.
De acordo com a International Association for the Study of Pain, o tratamento multidisciplinar da dor corresponde a uma abordagem que inclui profissionais de diferentes áreas. Por ser habitualmente o primeiro profissional a contactar com o utente, o médico de família assume, com frequência, a gestão inicial da dor, em particular, nos episódios de dor aguda que levam à procura de consulta aberta.
Esta posição confere à Medicina Geral e Familiar (MGF) um papel central não só no tratamento sintomático, mas também na prevenção da cronificação da dor aguda, através de um controlo álgico precoce e adequado. Também na dor crónica, a abordagem inicial deve ser feita pelo médico de família, seguindo uma sequência lógica, caracterização e avaliação do tipo de dor, exclusão de sinais de alarme, instituição de terapêutica inicial, quer farmacológica como não farmacológica e vigilância continuada da resposta terapêutica, com ajuste da estratégia conforme a evolução clínica.
Apenas quando o controlo álgico não é alcançado apesar de uma abordagem adequadamente conduzida e titulada é que se deve ponderar a referenciação, de acordo com os critérios estabelecidos, para consulta de Dor.
Do ponto de vista organizacional, as Unidades de Dor hospitalares constituem o topo de um sistema de referenciação baseado na complexidade clínica e terapêutica crescente.
Em 2024, a Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), em colaboração com o Grupo de Estudos de Dor da APMGF e Unidades de Dor nacionais, publicou recomendações de consenso definindo critérios explícitos de referenciação: casos muito prioritários (≤15 dias), prioritários (≤30 dias) e não-prioritários (≤120 dias), consoante gravidade, complexidade diagnóstica e necessidade de técnicas diferenciadas.
Deve ser referenciado à consulta de Dor o doente com dor crónica estabelecida, de intensidade moderada a severa e com impacto funcional relevante, refratária às opções terapêuticas disponíveis em cuidados de saúde primários, sobretudo quando existam problemas associados à terapêutica analgésica ou indicação para técnicas de intervenção exclusivas do meio hospitalar.
A gestão eficaz da dor crónica beneficia de uma articulação entre a MGF e a Unidade de Dor, e não apenas de um percurso estritamente sequencial. Para otimizar este modelo de cuidados partilhados, torna-se fundamental que a contrarreferenciação seja tão rigorosa quanto a referenciação, explicitando o plano, os objetivos e a quem compete cada decisão.
É igualmente necessário que existam vias de consultadoria rápidas, capazes de resolver dúvidas sem consumir uma vaga de primeira consulta. Um doente com dor crónica bem acompanhado é, quase sempre, o resultado de duas equipas que comunicam, e não de uma que substitui a outra.





