Traços de personalidade e dor: o que fazer?
Psicóloga Clínica (CP n.º 07281)
10 Set, 2026

Traços de personalidade e dor: o que fazer?

A dor é uma experiência pessoal, influenciada por fatores biológicos, psicológicos, relacionais e sociais. Perante uma condição clínica semelhante, duas pessoas podem atribuir significados distintos à dor, expressar de forma diferente e mobilizar recursos diversificados. Reconhecer esta variabilidade não diminui a realidade da dor, permite compreendê-la melhor.

Entre os fatores psicológicos relevantes encontram-se os traços de personalidade: padrões relativamente estáveis de sentir, pensar e agir. O modelo dos Cinco Grandes Fatores (Big Five) permite compreender diferenças individuais através de cinco traços da personalidade que não determina quem tolera ou não a dor, mas ajuda a compreender a dor da pessoa como um todo.

A evidência sugere que níveis elevados de Neuroticismo podem associar-se a uma maior sensação de ameaça, preocupação, sofrimento emocional e catastrofização. A Extroversão pode favorecer a procura de apoio; a Conscienciosidade, a adesão e a organização do autocuidado; a Abertura à Experiência, a flexibilidade perante novas estratégias; e a Amabilidade, o estabelecimento de relações de confiança e colaboração terapêutica. Nenhum traço é exclusivamente fator de risco ou de proteção e o seu efeito depende da história da pessoa, do contexto, do apoio disponível, das crenças e das estratégias de coping.

Por outro lado, a dor persistente, o medo, a incapacidade e a perda de papéis podem modificar a forma como a pessoa reage e se relaciona, pelo que uma expressão intensa de sofrimento não deve ser automaticamente atribuída à personalidade. Tal leitura pode conduzir à psicologização da dor, ao estigma e à desvalorização da experiência do doente.

Assim, importa avaliar a pessoa para além da intensidade da dor: significado atribuído, impacto funcional, emoções, coping, sono, relações, expectativas e objetivos. A comunicação pode ser adaptada consoante o traço de personalidade: algumas pessoas necessitam de informação detalhada e participação ativa, enquanto outras beneficiam de maior estrutura, validação emocional ou tempo para decidir. A intervenção deve ter em conta necessidades e recursos: educação sobre dor, estratégias cognitivo-comportamentais, regulação emocional, aceitação, ativação gradual, suporte social e articulação interdisciplinar.

Avaliar a personalidade não significa aplicar um inventário a todos os doentes, mas formular hipóteses clínicas, observar padrões sem os cristalizar e, quando indicado, recorrer a instrumentos validados como complemento e nunca como substituto da escuta terapêutica.

No Congresso Multidisciplinar da Dor 2026, a reflexão central será esta: não intervimos sobre a personalidade, mas sobre a forma como cada pessoa experiencia e responde à dor. Integrar o conhecimento dos traços de personalidade na avaliação clínica permite antecipar vulnerabilidades, reconhecer recursos e personalizar os cuidados de acordo como compreendemos de que modo a pessoa vive a dor.

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