
Assistente Graduado Sénior (reformado em exercício); Mestre em Comunicação em Saúde pela Universidade Aberta; Doutorado em Clínica Geral pela Faculdade de Ciências Médicas / NOVA Medical School da Universidade Nova de Lisboa
O Borrão da Modernidade Tardia: Da Consulta à Feira do Livro na Autoestrada da Alienação
Na sua obra A Alienação do Tempo, o sociólogo e filósofo alemão Hartmut Rosa oferece-nos um diagnóstico cortante da modernidade tardia: o paradoxo de uma sociedade tecnologicamente hiperconectada, mas existencialmente isolada. A aceleração social não é apenas uma métrica de velocidade técnica; é uma força invisível que reconfigura a nossa relação com o espaço, com os outros e com a nossa própria identidade.
Quando analisamos três cenários aparentemente distintos, a pressa mecânica de uma consulta médica, a perceção visual de um carro em plena autoestrada e a hiperestimulação mercantil de uma Feira do Livro, descobrimos que partilham exatamente a mesma patologia: a substituição sistemática da experiência profunda (Erfahrung) pela vivência episódica e descartável (Erlebnis).
O primeiro motor desta engrenagem revela-se na fenomenologia do movimento, perfeitamente ilustrada pela analogia do carro na autoestrada. Quando aceleramos o veículo, as árvores na berma deixam de ser entidades singulares para se transformarem num borrão verde e indistinto. A física do movimento dita que, quanto mais rápido nos deslocamos, mais mudo e estático se torna o mundo exterior.
É este o cerne da alienação espacial e social de Rosa. O sujeito pós-moderno corre freneticamente para produzir, consumir e trocar mensagens rápidas, mas essa agitação resulta numa estranha imobilidade existencial. Tal como o condutor que permanece rigidamente sentado enquanto a paisagem desaba à sua volta, o homem contemporâneo experimenta o que Rosa e Paul Virilio designam por “estagnação frenética”. Faz-se muito, mas nada se fixa; o mundo perde o seu detalhe e a sua voz.
Este efeito de “borrão” coloniza diretamente as esferas mais sagradas da interação humana, como a prática clínica. No consultório, o médico que salta de pergunta em pergunta fechada, abrindo e fechando janelas no computador, replica a velocidade do automóvel. Cada clique e cada item burocrático preenchido são meras Erlebnisse: estímulos fragmentados que visam tornar o doente “disponível” e quantificável para o sistema. Ao anular o tempo de latência e ao silenciar a narrativa do paciente, o clínico impede a manifestação da eficácia própria (Selbstwirksamkeit), isto é, a capacidade de afetar e ser afetado pelo outro. O conhecimento mútuo transforma-se num espelho duplo e frio: ambos sabem que estão ali, mas a eletricidade da empatia está cortada. Sem espaço para o inesperado, a consulta médica deixa de ser um lugar de cura e transformação mútua (Erfahrung) para se tornar uma linha de montagem burocrática.
Se a aceleração destrói o cuidado na saúde, ela também industrializa o descanso e a cultura, como se observa na metamorfose dos espaços literários. O desaparecimento progressivo das livrarias tradicionais em detrimento da proliferação das megafeiras do livro é o sintoma cultural desta inversão. A livraria clássica era o reduto da cinestesia e do tempo lento; um ecossistema onde o corpo abrandava para que o tato, o cheiro do papel e o silêncio permitissem ao livro “falar” com o leitor.
Em contrapartida, as grandes feiras funcionam como parques de diversões do consumo. Sob o pretexto do acesso total à cultura, o leitor é bombardeado por um fluxo contínuo de estímulos, luzes, filas, marketing, onde é fisicamente impossível sentar-se e demorar-se sobre uma obra. O livro passa a ser um mero objeto de fetiche e acumulação quantitativa, comprado sob o imperativo produtivo do “devia ler”, esvaziado do desejo autêntico do “quero ler”.
Em suma, quer estejamos a falar do médico que automatiza o diagnóstico, do condutor que desfoque a paisagem, ou do leitor que acumula livros na feira para os ler à pressa numa semana de férias, o diagnóstico de Hartmut Rosa permanece inabalável. A modernidade tardia promete-nos as infraestruturas para uma “boa-vida” assente na velocidade e na facilidade material, mas confisca-nos a possibilidade de alcançar uma “vida boa” assente no significado. O verdadeiro antídoto contra esta pobreza de experiência não é a mera lentidão, mas sim a coragem de restabelecer eixos de ressonância: suspender o clique, olhar para a árvore na berma, escutar a história do doente e ler com “olhos de ler”, permitindo que o mundo nos volte a tocar e a transformar.
NOTA: O autor utilizou o modelo de inteligência artificial Gemini (Google) como assistente editorial para a revisão estilística e estruturação gramatical do manuscrito original.
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