Nunca Fomos Tão Vistos? Uma reflexão sobre o lugar da psicologia num mundo com pressa
Psicóloga clínica, cofundadora e diretora da clínica O Teu Lugar
4 Set, 2026

Nunca Fomos Tão Vistos? Uma reflexão sobre o lugar da psicologia num mundo com pressa

Nunca fomos tão “vistos”. Os algoritmos resumem-nos em vinte segundos, alguns podcasts fazem parecer que a terapia pode assemelhar-se a uma conversa de café e a palavra “trauma” tornou-se tão comum como a palavra “trânsito”. Fala-se de saúde mental em programas de entretenimento, em anúncios de marcas de roupa, em legendas de fotografias de férias. Existem hoje mais formas de falar sobre o que se passa por dentro do que em qualquer outro momento da história recente.

E, no entanto, há qualquer coisa em quem procura ajuda e em quem a presta, com sede de ser verdadeiramente compreendida. Não apenas vista. Conhecida. Essa sede não parece desaparecer com o aumento da visibilidade; talvez, até, se agrave, porque hoje é mais fácil do que nunca confundir as duas coisas, e ficar-se pela primeira, satisfeito com o reconhecimento momentâneo de lhe ter posto nome.

Talvez este seja um dos grandes paradoxos em que a psicologia vive hoje: nunca foi tão procurada, e, ao mesmo tempo tão mal entendida. Neste dia dedicado aos psicólogos, parece-me mais honesto não escrever sobre o quanto a nossa profissão é importante, porque isso já todos sabemos (ou, pelo menos, já todos ouvimos dizer), mas sobre o que significa exercê-la neste momento preciso, com todas as suas contradições. Porque há uma diferença entre uma profissão que se tornou popular e uma profissão que se tornou compreendida, e é nessa diferença que gostaria de me demorar um pouco mais.

A profissão que saiu do consultório

Há uma ou duas décadas, dizer que se ia ao psicólogo ainda se fazia com uma certa “tosse para disfarçar”, um “mas não é nada de grave”… uma justificação que ninguém pedia ao dentista. Muitas famílias trataram, durante gerações, o sofrimento psicológico como algo que se resolve sozinho, com força de vontade, ou que simplesmente não se nomeia. Hoje, em mais casos do que antes, que é hora da terapia quase a mesma naturalidade com que se fala de uma ida ao ginásio. Isto é, sem exagero, uma vitória! E uma vitória que custou décadas de trabalho silencioso de gerações de psicólogos e de pessoas que, muito antes de haver plataformas para o fazer, escreveram, ensinaram, romperam silêncios familiares e sociais, e sobretudo estiveram, sala após sala, a mostrar que pedir ajuda não é fraqueza, e a treinar uma geração de psicólogos aprendizes que trabalham num mundo diferente do que imaginavam.

Mas a popularidade tem os seus próprios efeitos secundários. Quando um conceito clínico como vinculação, trauma, limites, ou um diagnóstico clínico como PHDA, Autismo, Borderline, Narcisismo, sai do consultório e entra no vocabulário comum, ganha alcance e perde precisão. Passa a explicar tudo e, por isso mesmo, arrisca-se a explicar pouco: um dia mau pode transformar-se em “estar em burnout”, uma discordância pode parecer “abuso emocional”, e uma tristeza passageira já é sintoma a tratar em vez de experiência a atravessar. Desmistificar a psicologia não devia ser apenas torná-la “simpática” ou parecida com uma conversa entre amigos; devia ser ajudar as pessoas a distinguir entre reconhecer-se num conceito e ser efetivamente ajudado por ele. São coisas diferentes, e confundi-las é, curiosamente, uma nova forma de mistério a substituir o antigo, só que desta vez com a aparência de quem já percebeu tudo.

Vale a pena repetir para que seja ouvido, sem grandes voltas, porque é que este apoio importa tanto, para lá da moda ou da conversa de circunstância. Não é (só) porque “falar liberta”… Falar liberta, sim, muitas vezes, mas o que está aqui em jogo é outra coisa; algo que só acontece na presença testemunhada de outra pessoa: um pensamento que ronda a cabeça há anos, ao ser dito em voz alta e ouvido sem pressa nem julgamento, ganha um contorno que sozinho nunca tinha tido. A relação terapêutica, mais do que qualquer técnica específica é, segundo praticamente todas as escolas de psicoterapia, um dos fatores que mais pesa no resultado. Não é um detalhe bonito a acrescentar depois da técnica; é, em boa parte, a base que sustenta o próprio tratamento.

A promessa da rapidez

Vivemos rodeados de uma promessa constante de que tudo pode ser mais rápido: a entrega, a resposta, a recuperação. Essa promessa, tão útil para uma encomenda, torna-se traiçoeira quando se aplica à mudança psicológica. Há, de facto, intervenções breves que funcionam muito bem, e a prática clínica tem-nos ensinado bastante sobre como ser eficaz sem ser eterno. Mas eficácia não é o mesmo que instantaneidade, e é aqui que muitas pessoas (e, sejamos justos, também incluindo muitos psicólogos, sob pressão de agendas cheias e de expectativas alheias!), confundem as duas coisas.

Pensemos num exemplo comum: alguém chega à primeira consulta a pedir uma “ferramenta” para deixar de sentir ansiedade antes de reuniões de trabalho. A ferramenta existe, e pode ajudar já na semana seguinte. Mas se essa ansiedade nasce de uma dificuldade antiga em pedir ajuda, ou do medo de desiludir figuras de autoridade, ou de uma história em que errar nunca foi seguro, a ferramenta trata o sintoma que grita mais alto, sem tocar na estrutura que o produz. Ambos os níveis de trabalho são legítimos, e um bom acompanhamento sabe quando cada um serve. O problema começa quando se espera que o segundo aconteça à velocidade do primeiro.

O tempo em terapia não é um obstáculo burocrático a ultrapassar antes de “chegar lá”. É, muitas vezes, o próprio mecanismo da mudança. É preciso tempo para que um padrão se torne visível antes de se tornar mutável: não se muda aquilo que ainda não se conseguiu ver com nitidez. É preciso tempo para que a confiança na relação terapêutica seja suficientemente sólida para suportar aquilo que dói dizer, e que raramente se diz à primeira, à quinta, por vezes só à vigésima sessão. É preciso tempo, ainda, para que o alívio inicial, sempre bem-vindo, se consolide em algo mais duradouro do que a sensação de ter sido ouvido uma vez. Confundir alívio com mudança é talvez o erro mais caro que se pode cometer nesta profissão, e, cada vez mais, o que se pede a quem a exerce.

Quando a exposição também nos expõe a nós

Chego agora à parte mais desconfortável desta reflexão, e escrevo-a incluindo-me nela, sem exceção. A visibilidade que a psicologia ganhou nos últimos anos é, na sua origem, uma revolta legítima contra décadas de silêncio, vergonha e desvalorização. Psicólogos que hoje partilham conhecimento em vídeos curtos, que respondem a perguntas em direto, que desmistificam mitos sobre emoções ou sobre terapia de casal, estão a continuar esse trabalho e fazem-no, muitas vezes, com genuína generosidade e competência técnica. Isso merece ser dito com clareza, sem ironia e sem reservas.

Mas seria desonesto fingir que a linha entre desmistificar e performar é sempre nítida, mesmo para quem já pensou muito sobre isto. Há uma diferença entre partilhar conhecimento para que outra pessoa se sinta menos só, e partilhar-se a si próprio para se sentir mais visto. A primeira serve quem ouve; a segunda, por melhor intencionada que comece por ser, acaba por servir sobretudo quem fala. E o mais inquietante é que estas duas coisas raramente aparecem separadas: coexistem no mesmo gesto, na mesma publicação e, por vezes, na mesma frase. Não há aqui um “nós, os bons” e um “eles, os vaidosos”. Há uma tentação humana, comum a uma profissão que durante décadas foi invisível e que descobriu, de repente, uma plateia, e é preciso alguma humildade para admitir que uma plateia muda quem fala perante ela, mesmo quando essa pessoa tem formação clínica e as melhores intenções.

Nem toda a responsabilidade é de quem fala, já agora. Vivemos também um tempo que recompensa o conteúdo curto, a frase de efeito, a resposta simples a uma pergunta complexa, e um psicólogo que insista em dizer “depende” a cada pergunta, por mais rigoroso que isso seja, tem menos alcance do que outro que ofereça três passos infalíveis. Isto não desculpa o exagero, mas contextualiza-o: é difícil pedir a alguém que resista sozinho a um incentivo estrutural inteiro.

Talvez a pergunta mais honesta que qualquer psicólogo com presença pública possa fazer a si mesmo não seja “isto é ético?”, mas antes “isto ajudaria alguém que eu nunca vou conhecer, mesmo que esta plateia toda não estivesse a ver-me fazê-lo?”. Nem sempre podemos gostar da resposta que essa pergunta devolve. Mas fazê-la, com regularidade, parece-me a única forma de continuar a merecer a confiança que esta profissão está, aos poucos, a reconquistar.

Uma sociedade cansada

Há ainda uma reflexão mais ampla que não posso deixar de fazer, porque atravessa tudo o resto. Vivemos numa sociedade que consome muito mais do que cria, que está mais polarizada do que dialogante, e que trata a atenção como o recurso mais escasso e mais disputado que existe. Abrimos uma aplicação para preencher três minutos livres com o trabalho de outra pessoa – um vídeo, uma opinião, uma vida alheia em resumo – e raramente perguntamos o que aconteceria se esses três minutos ficassem, simplesmente, vazios. Passamos mais tempo a reagir ao que os outros fizeram do que a fazer nós próprios; mais tempo a escolher um lado do que a suportar a ambiguidade de ainda não ter uma opinião fechada sobre algo complexo. Não é por acaso que a procura por apoio psicológico cresce ao mesmo ritmo que cresce o cansaço coletivo: pede-se mais a cada pessoa – mais produtividade, mais presença, mais opinião, mais rapidez – do que os seus recursos internos conseguem sustentar sem custo.

Aqui, chego a um ponto que me parece cada vez mais urgente: as ferramentas que hoje nos ajudam a aliviar essa carga, desde uma simples lista de tarefas automatizada até às aplicações de “apoio emocional” instantâneo, e aos assistentes de inteligência artificial que respondem a qualquer hora do dia ou da noite são genuinamente úteis, e seria hipócrita da minha parte não o reconhecer. Para muita gente que não teria coragem, dinheiro ou tempo para chegar a um consultório, estas ferramentas são muitas vezes a única porta de entrada, e isso tem valor real.

Mas usadas como substituto, e não como complemento, arriscam-se a fazer aquilo que qualquer atalho recorrente acaba por fazer: aliviar o peso no momento sem treinar o músculo que permitiria carregá-lo da próxima vez. A tolerância à frustração, a capacidade de estar só com um pensamento difícil sem precisar de o resolver de imediato, a paciência para uma conversa que não vai a lado nenhum depressa, a coragem de dizer a outra pessoa aquilo que dói, são capacidades que só se desenvolvem com uso e o uso implica, precisamente, o atrito que estas ferramentas tantas vezes nos poupam. Um mundo onde nunca se precisa de esperar por uma resposta é também um mundo com menos oportunidades para aprender a esperar.

Sendo eu própria beneficiária destas mesmas ferramentas, todos os dias, seria uma ironia mal digerida transformar isto em condenação. O que vejo, como psicóloga, são os efeitos de um mundo que aprendeu a aliviar quase tudo, exceto o cansaço mais profundo, aquele que só se resolve com tempo, presença, e muitas vezes com outra pessoa a testemunhar o que se está a passar.

O que continua a acontecer na sala

Depois de tudo isto, o mediatismo, a pressa, o cansaço coletivo, talvez valha a pena lembrar o que, apesar de tudo, continua igual. A sala de consulta continua a ser um dos poucos espaços concebidos, deliberadamente, para o oposto de tudo o que descrevi: não para ser visto, mas para ser conhecido; não para ser rápido, mas para ter o tempo que for preciso; não para performar clareza, mas para admitir confusão sem consequências adversas.

É isso que as pessoas podem continuar a contar da nossa parte, hoje e nos dias que se seguem a este: uma atenção que não está a ser dividida com um ecrã, uma pergunta feita porque interessa verdadeiramente a resposta e não porque preenche um silêncio incómodo, um espaço onde a pressa de resolver não substitui a vontade de compreender. Não prometemos rapidez, porque seria mentira e negligência. Prometemos presença, e a presença, ao contrário de quase tudo o resto que hoje se pode obter em vinte segundos, continua a exigir o tempo todo que sempre exigiu.

Se é psicólogo ou psicóloga a ler isto, este dia é também seu e talvez a melhor forma de o celebrar seja voltar amanhã à sala de consultas com a mesma humildade de sempre, sem pressa de provar nada a ninguém que não esteja sentado à sua frente. E se está do outro lado, a perguntar-se se vale a pena procurar ajuda: sim. Não porque resolva tudo depressa, mas porque continua a ser um dos poucos lugares onde não precisa de ter pressa para ser levado/a a sério.

Talvez seja essa, no fundo, a forma mais honesta de assinalar este dia: não celebrar o quanto se fala de nós, mas comprometermo-nos, de novo, a merecer que continuem a confiar-nos aquilo que não se atreveram a dizer a mais ninguém.

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