23 Jul, 2026

Demências. Portugal tem de passar da estratégia à ação e garantir acesso equitativo à inovação

Especialistas e políticos concordam que é preciso haver uma estratégia nacional concertada para combater as demências, face ao atraso no diagnóstico e a outras falhas que põe em causa o tratamento equitativo de todos os doentes.

Demências. Portugal tem de passar da estratégia à ação e garantir acesso equitativo à inovação

“Perante o impacto crescente do envelhecimento populacional e das demências, Portugal tem de acelerar a execução de uma estratégia integrada e rever a forma como avalia, financia e garante o acesso à inovação terapêutica.” O apelo foi deixado, ontem, na conferência “Doença de Alzheimer: Momento de Agir”, promovida pela Alzheimer Portugal, na Assembleia da República, a propósito do Dia Mundial do Cérebro.

Na sessão de abertura, Rosário Zincke dos Reis, presidente da Alzheimer Portugal, alertou que se estima que o número de pessoas com demência dispare para mais de 368 mil até 2050. Face a estes números, a responsável defendeu que o acesso à inovação não pode depender da condição financeira individual.

Apesar da satisfação pelo facto de que o novo modelo de Avaliação de Tecnologias de Saúde passar a prever a participação das associações de doentes, deixou um aviso ao Estado: “É fundamental que o impacto real da doença, a nível social, económico e emocional, seja um fator de peso na avaliação e financiamento das novas terapias”.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, assumiu, por sua vez, a resposta às demências como uma prioridade que exige “uma ação concertada”, recordando que mais de 200 mil pessoas vivem atualmente com a doença em Portugal. Para tal definiu três eixos de atuação prioritários para o Governo: o reforço da prevenção, a urgência do diagnóstico precoce — alertando que os diagnósticos tardios resultam na perda de janelas críticas de oportunidade de intervenção — e a preparação do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Na sua intervenção frisou ainda que o SNS tem de estar capacitado para integrar a inovação na prática clínica de forma eficaz. Neste sentido, anunciou medidas associadas à implementação da Estratégia da Saúde na área das Demências, destacando um novo modelo de governação desenhado para “assegurar uma coordenação nacional mais forte e uma resposta verdadeiramente integrada” entre os cuidados de saúde e o setor social.

Em debate, os grupos parlamentares presentes (PSD, Chega, PS, IL e PCP) chegaram a um consenso: o país tem de passar da legislação para o terreno. Contudo, as perspetivas sobre os desafios atuais trouxeram diferentes alertas à mesa, como avança a Alzheimer Portugal em comunicado.

Francisco Sousa Vieira, do PSD, defendeu a necessidade de continuidade política. “Precisamos de estabilidade no sistema, não de introduzir novos planos ou leis”, afirmou, destacando ainda o papel central do INFARMED para garantir a equidade nas políticas.

Por sua vez, Cristina Vieira Henriques, do Chega, denunciou a realidade sentida fora dos centros urbanos, considerando o acesso equitativo à saúde “uma utopia”. Face à falta de médicos de família, alertou que a urgência hospitalar se tornou a única porta de entrada no sistema.

Do lado do PS, Irene Costa defendeu uma maior interligação com os municípios face à diversidade e desigualdade do país, advogando por mais autonomia e flexibilidade legislativa para as Unidades Locais de Saúde (ULS).

Já Paula Santos, pelo PCP, concordou com o modelo de proximidade, mas avisou que este não pode ser pretexto para a desresponsabilização do Estado nos planos social e da saúde. “Além de planear, é necessário listar recursos para garantir a execução dos planos”, acrescentou.

Estas preocupações alinham-se com as advertências dos especialistas clínicos que denunciam falhas críticas no SNS, como as longas esperas por consultas de Neurologia (em média 270 dias) e a falta de comunicação entre a saúde e as estruturas sociais. Todas estas lacunas põe em causa o diagnóstico precoce, nomeadamente através de biomarcadores sanguíneos.

Maria João Garcia

Notícia relacionada

Medicamentos inovadores para Alzheimer não aprovados por Infarmed por falta de “valor terapêutico acrescentado”, diz ministra

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais