15 Jul, 2026

Relatório da ANADIAL alerta para “desfasamento entre preço e custo” da hemodiálise

Um relatório da ANADIAL sobre preço compreensivo da hemodiálise em Portugal confirma que existe um "desfasamento entre preço e custo". Para a associação, estes resultados reforçam a necessidade de adoção de um mecanismo de atualização regular.

Relatório da ANADIAL alerta para “desfasamento entre preço e custo” da hemodiálise

A atualização do estudo “Preço Compreensivo da Hemodiálise em Portugal”, realizado a pedido da ANADIAL – Associação Nacional de Centros de Diálise, confirma “um desfasamento financeiro significativo entre o preço dos tratamentos de hemodiálise atuais e os custos para as clínicas que os realizam”, avança a entidade em comunicado. Para a associação, estes resultados sugerem que o preço atualmente pago por sessão não acompanha a inflação real dos custos, na medida que o preço compreensivo não tem acompanhado a evolução dos custos operacionais,  com um aumento significativo destes últimos. Isto traduz-se “numa pressão acrescida sobre a sustentabilidade económica dos prestadores”, sendo “essencial adotar um mecanismo de atualização regular desse preço”.

O relatório revela que a redução administrativa implementada em 2012, que consistiu numa descida e imposição de novos limites máximos para o preço compreensivo pago pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) aos centros de diálise, teve um” impacto profundo” nestas contas, originando um diferencial significativo no financiamento da hemodiálise em Portugal.

“O impacto negativo desta decisão política do passado sobre o nível atual de financiamento torna-se particularmente evidente quando se comparam os dois cenários de estimativas do preço compreensivo projetado para 2025: com a redução administrativa de 2012, o preço compreensivo estimado fixa-se em aproximadamente 654€ por sessão em 2025; sem a redução administrativa de 2012, atingiria cerca de 779€ por sessão. Este foi um corte da troika nunca revertido.”

Para a ANADIAL, a diferença entre estes dois cenários demonstra que a redução de 2012 agravou o desfasamento entre a evolução dos custos operacionais das clínicas e o preço efetivamente praticado e financiado, com a persistência deste diferencial ao longo do tempo a traduzir-se numa pressão acrescida sobre o equilíbrio económico-financeiro e a sustentabilidade dos prestadores destes cuidados de saúde.

A associação considera que são vários os fatores responsáveis por impulsionar o crescimento dos custos da hemodiálise em Portugal, com particular incidência a partir de 2022, a começar pelo aumento das remunerações no setor da saúde, com os gastos com pessoal a representarem a maior fatia da estrutura de custos operacionais de uma clínica médica de hemodiálise – pesando cerca de 49%.

Acresce o crescimento da despesa com medicação, que representa cerca de 6% da estrutura de custos e que tem registado taxas de crescimento particularmente elevadas ao longo do tempo, ao qual se junta os preços das utilities (energia e água), que pesam 5% nos custos das clínicas. “Esta componente contribuiu de forma muito significativa para o aumento dos custos, sobretudo em 2022, refletindo o contexto inflacionista global associado aos preços da energia.”

Além destes três determinantes principais, a inflação geral dos bens e serviços de saúde afeta as restantes categorias, nomeadamente os consumíveis (16%), os acessos vasculares (3%), os meios complementares de diagnóstico e terapêutica (2%) e outros custos (19%). “E embora estas áreas apresentem uma trajetória de crescimento mais moderada quando comparadas com as remunerações ou a medicação, acompanham a tendência geral de subida, contribuindo para a pressão acrescida sobre o equilíbrio económico-financeiro dos prestadores destes cuidados de saúde.”

A ANADIAL reforça a necessidade de adoção de um mecanismo de atualização regular do preço compreensivo, considerado essencial para assegurar a coerência entre custos e financiamento, a sustentabilidade económica da prestação de cuidados de hemodiálise, bem como a manutenção da qualidade e da capacidade de resposta do sistema.

“As clínicas privadas asseguram atualmente mais  de 91% dos tratamentos de hemodiálise em Portugal, mantendo o compromisso com os doentes apesar das dificuldades. No entanto, o desfasamento entre o preço compreensivo e os custos reais ameaça a sustentabilidade deste trabalho e, com ele, a resposta que milhares de portugueses recebem todos os dias; é essencial, por isso, aplicar um mecanismo de atualização regular do preço compreensivo”, conclui Paulo Dinis, presidente da associação.

Maria João Garcia

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