Gestão de situações de violência contra profissionais de saúde na USF Serpa Pinto no Porto
Médicas Internas de Medicina Geral e Familiar da USF Serpa Pinto

Gestão de situações de violência contra profissionais de saúde na USF Serpa Pinto no Porto

A violência compromete o respeito mútuo, a confiança e a qualidade das relações humanas. Por essa razão, não deve ser ignorada, banalizada ou tolerada. Gandhi lembrava que “a arma mais perigosa da violência é o silêncio que a tolera”, sublinhando a responsabilidade de denunciar e reportar comportamentos violentos. Na mesma linha, João Paulo II afirmava que “a violência destrói o que ela pretende defender: a dignidade da vida, a liberdade do ser humano”. Este princípio encontra-se igualmente expresso no Código Penal Português.

Nos cuidados de saúde, a ocorrência de comportamentos violentos constitui um obstáculo à prestação de cuidados em condições de segurança e qualidade. A violência contra os profissionais de saúde deixou de ser um fenómeno isolado, afetando o bem-estar das equipas e a qualidade dos cuidados prestados. Entende-se por violência no setor da saúde qualquer situação em que o profissional é exposto a comportamentos agressivos físicos ou psicológicos relacionados com o seu trabalho, colocando em risco a sua saúde ou a de terceiros.

Neste contexto, foi desenvolvido, na USF Serpa Pinto, no Porto, um projeto de intervenção conduzido por médicas internas de Formação Específica em MGF, com o objetivo de capacitar os profissionais para a gestão de situações de violência.

A intervenção iniciou-se com uma sessão de apresentação do protocolo do projeto e sensibilização da equipa para a relevância do tema. Seguiu-se a aplicação de um questionário de 16 itens de escolha múltipla, destinado a avaliar conhecimentos sobre gestão de situações de violência e da escala Healthcare-workers’ Aggressive Behaviour Scale – Users (avalia a perceção dos profissionais face ao comportamento agressivo dos utentes nos CSP). Posteriormente, foram dinamizadas sessões formativas, permitindo aos participantes aprofundar os seus conhecimentos acerca de estratégias e protocolos delineados para estas situações. Em paralelo, foram disponibilizados folhetos e procedeu-se à atualização do protocolo de atuação existente.

Um mês após a intervenção, foi realizada nova avaliação com os mesmos instrumentos. Verificou-se um aumento da pontuação no questionário de conhecimentos (de 13,71 para 14,67 em 16 valores), ainda que sem significância estatística. Relativamente à perceção de violência, registou-se uma diminuição do valor médio (de 10,76 para 9,10), com redução estatisticamente significativa em duas questões específicas da escala.

Apesar de os resultados não demonstrarem diferenças estatisticamente significativas globais, sugerem uma variação no sentido esperado, quer ao nível do conhecimento, quer da percepção da violência. Estes dados apontam para a necessidade de intervenções mais prolongadas e sistemáticas, capazes de consolidar competências e promover maior confiança na gestão.

A violência no setor da saúde é um fenômeno multifatorial, cuja abordagem exige mais do que formação pontual. Exige uma resposta clara, estruturada e consistente, assente em políticas de tolerância zero. Estas políticas só são eficazes quando acompanhadas de uma cultura organizacional que valorize a segurança e o respeito dos profissionais. Isso implica a existência de normas, procedimentos formais e o reforço da confiança para reportar incidentes sem medo de represálias.

Para concluir, a prevenção da violência deve ser entendida como uma responsabilidade compartilhada entre instituições, profissionais e sociedade, com o objetivo de garantir ambientes seguros, dignos e respeitadores.

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