
Assistente Graduado de Urologia no IPO-Porto, Fellow do European Board of Urology e diretor do Instituto de Terapia Focal da Próstata (www.prostatafocal.com)
Cancro da próstata: tratar o tumor sem sacrificar a qualidade de vida
O cancro da próstata é o tumor mais frequente no homem em Portugal, com milhares de novos casos por ano. A boa notícia é que, detetado a tempo, é hoje altamente tratável. A pergunta que cada vez mais doentes me colocam na consulta não é apenas “como me curo?”, mas “como me curo sem deixar de ser quem era?”. É uma pergunta justa — e a medicina tem hoje respostas que há uma década não tínhamos.
Durante muitos anos, o tratamento do cancro da próstata localizado assentou em duas opções: a cirurgia de remoção total da glândula e a radioterapia. São tratamentos eficazes e continuam a ser indispensáveis em muitos casos. Têm, porém, um preço frequente: por atuarem sobre toda a próstata, podem afetar estruturas vizinhas delicadas — os nervos da ereção e o esfíncter que controla a urina. Para muitos homens, isso significa conviver com incontinência ou disfunção sexual.
É aqui que entra a terapia focal, uma terceira via que mudou a forma como olho para esta doença. Em vez de tratar toda a glândula, tratamos apenas a zona onde o tumor está. Entre estas técnicas, a eletroporação irreversível (IRE) é a que melhor traduz esta filosofia. Não usa calor nem radiação: através de finas sondas colocadas com precisão, guiadas por imagem, aplicam-se impulsos elétricos que destroem as células tumorais e poupam o tecido saudável em redor. Por não depender de temperatura, respeita os feixes nervosos e o esfíncter urinário — exatamente as estruturas que mais sofrem nos tratamentos clássicos.
Na prática, é um procedimento minimamente invasivo, realizado em 30 a 90 minutos, que permite, na maioria dos casos, a alta no próprio dia e um regresso rápido à vida normal. Para o doente, isto traduz-se em menos tempo de internamento, menos receio e a possibilidade de voltar ao trabalho e à rotina em poucos dias. Fui um dos primeiros em Portugal a aplicar esta técnica ao cancro da próstata e, nos últimos anos, fui convidado a partilhar essa experiência com colegas no estrangeiro — sinal de que o que fazemos no Porto acompanha o que de melhor se pratica na Europa. Não falo de uma promessa de futuro, mas de uma realidade que já trata doentes portugueses.
Quero, contudo, ser claro: a terapia focal não substitui todos os tratamentos nem serve todos os doentes. Aplica-se a casos de cancro localizado, criteriosamente selecionados após um estudo individual rigoroso, que assenta na ressonância magnética e na biópsia de fusão — só um diagnóstico preciso permite um tratamento preciso. Há doentes para quem a cirurgia ou a radioterapia continuam a ser a melhor escolha.
A mensagem que deixo aos homens é simples: façam o rastreio, valorizem um PSA alterado e procurem informar-se. Um diagnóstico de cancro da próstata já não tem de significar escolher entre a cura e a qualidade de vida. Hoje, muitas vezes, é possível ter as duas.
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