Doença crónica cresce em Portugal e afeta mais os grupos desfavorecidos
A prevalência da doença crónica continua a ser mais elevada entre os mais idosos - com um aumento de 14 pontos percentuais no grupo dos 65 aos 79 anos -, mas registam-se também subidas significativas entre os mais jovens.

A doença crónica está a aumentar em Portugal e o seu crescimento resulta sobretudo de um agravamento da carga de doença dentro dos próprios grupos etários, e não apenas do envelhecimento da população. A conclusão é de uma análise realizada no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação la Caixa, o Banco BPI e a Nova School of Business and Economics (Nova SBE).
O estudo baseia-se em dados de um inquérito a mais de 8.600 pessoas, realizado entre 2017 e 2025, e intitula-se “Doença crónica: inevitabilidade demográfica ou mudança estrutural? Uma decomposição da evolução da prevalência de doenças em Portugal (2017–2025)”. Entre as principais conclusões, destaca-se um “impacto particularmente desproporcional” da doença crónica nos grupos mais desfavorecidos.
Entre 2017 e 2025, a prevalência de doença crónica aumentou de 28% para 36%, enquanto a multimorbilidade atingiu os 19%, após um crescimento de 10 pontos percentuais. “Os resultados apontam para uma expansão da morbilidade ao longo de todo o ciclo de vida adulto, verificando-se que cerca de 71% do aumento da doença crónica resulta de um agravamento dentro dos próprios grupos etários (e não apenas do envelhecimento)”, refere o comunicado.
A prevalência continua a ser mais elevada entre os mais idosos — com um aumento de 14 pontos percentuais no grupo dos 65 aos 79 anos —, mas registam-se também subidas significativas entre os mais jovens, com crescimentos de cerca de 8 pontos percentuais nos grupos dos 15 aos 29 anos e dos 45 aos 64 anos. A alteração da estrutura demográfica explica apenas 29% do aumento global.
No caso da multimorbilidade, o padrão é semelhante: 87% do aumento deve-se ao agravamento dentro dos grupos etários, enquanto apenas 13% resulta de mudanças demográficas. Entre os homens, a percentagem com multimorbilidade aumentou 23,5 pontos percentuais nos indivíduos com 80 ou mais anos, 16,7 pontos percentuais entre os 65 e os 79 anos e 3,7 pontos percentuais no grupo dos 45 aos 64 anos. “Esta evolução indicia que a doença crónica não só surge cada vez mais cedo, como também evolui para formas mais complexas, acumulando-se ao longo da vida e exigindo respostas mais integradas e continuadas por parte do sistema de saúde”, sublinham os investigadores.
A análise evidencia ainda um agravamento das desigualdades sociais em saúde. A probabilidade de uma pessoa com maiores dificuldades económicas ter doença crónica quase duplicou, passando de 26% em 2017 para 49% em 2025. Em comparação com os grupos socioeconómicos mais favorecidos, os indivíduos mais desfavorecidos apresentavam, em 2025, uma probabilidade 23,5 pontos percentuais superior de sofrer de doença crónica. No caso da multimorbilidade, a diferença entre grupos aumentou de 4 para 27 pontos percentuais no mesmo período. Os dados apontam para um risco crescente de desigualdade cumulativa, em que os grupos com maior carga de doença são também os que enfrentam mais dificuldades no acesso aos cuidados de saúde.
O aumento da prevalência de doença crónica ao longo do ciclo de vida adulto, associado ao crescimento da multimorbilidade, traduz-se em perfis clínicos cada vez mais complexos, com maior acumulação de condições e necessidade de acompanhamento contínuo, integrado e centrado no doente.
Perante este cenário, os investigadores defendem o reforço de políticas públicas que respondam não só ao envelhecimento da população, mas também ao agravamento das desigualdades. Entre as recomendações estão o investimento na prevenção — com especial enfoque nas populações mais vulneráveis —, o desenvolvimento de modelos integrados de gestão da doença e a redução de barreiras no acesso a cuidados, nomeadamente ao nível da medicação e dos cuidados de saúde primários.
A análise foi conduzida pelos investigadores Carolina Santos e Pedro Pita Barros, este último responsável pela Cátedra BPI | Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde, no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social.
Maria João Garcia
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