IST nos jovens: quando o risco parece distante
Paulo Gomes (Médico interno de MGF na USF Ribeirinha, ULS Arco Ribeirinho, onde integra o corpo clínico da consulta de Saúde Sexual. Pós-graduado em Sexualidade Humana e com formação internacional em IST e PrEP); Carla Marques (Médica interna de MGF na USF Travessa da Saúde, ULS São José, onde integra o corpo clínico da consulta de Contracepção de Longa Duração. Pós-graduada em Sexologia Clínica e Terapia de Casal); Tahydi Valle (Assistente Graduada de MGF, USF São Vítor. ULS Braga)

IST nos jovens: quando o risco parece distante

Nos últimos anos, as infeções sexualmente transmissíveis (IST) têm aumentado persistentemente entre jovens, sobretudo clamídia, gonorreia e sífilis. Segundo o European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), o número de casos confirmados de gonorreia atingiu em 2023 um máximo histórico – cerca de 117.000 casos. As projeções preliminares indicam que em 2024 poderá ter sido novamente ultrapassado esse recorde. Já a infeção por clamídia permanece como a IST bacteriana mais notificada, com mais de 70% dos casos em pessoas entre os 15 e os 24 anos.

Apesar da crescente disponibilidade de informação, a perceção de risco entre os jovens permanece reduzida. O ECDC realça que “conhecimento não se traduz necessariamente em comportamento protetor” — importa distinguir entre awareness (consciência) e risk perception (perceção subjetiva do risco).

A baixa perceção de risco está associada a vários fatores: a frequência de infeções assintomáticas, o uso inconsistente do preservativo, e a influência de redes sociais e aplicações de dating, que modificam padrões de contacto e de confiança, enquanto disseminam informação frequentemente não verificada.

A promoção do uso consistente do preservativo continua a ser a medida mais custo-efetiva. A cultura de relações casuais, hoje mais visível e socialmente aceite, facilita o contacto entre pessoas, mas também aumenta a exposição ao risco. Em muitos casos, a decisão de não usar preservativo resulta de impulso, desconforto em negociar ou da ideia de que “não me vai acontecer a mim”. É essencial integrá-lo como parte normal da relação sexual, sem exceções baseadas em confiança momentânea.

O ECDC e o gabinete europeu da OMS destacam também a necessidade de reforçar uma Educação sexual abrangente e continuada, alinhada com o previsto na Lei n.º 60/2009 e com as orientações da DGS. Esta deve abranger diversidade de género e práticas, visto que programas de longa duração integrados no currículo são mais eficazes do que ações pontuais de sensibilização.

O último eixo de medidas preventivas é o do diagnóstico precoce e tratamento, onde a Medicina Geral e Familiar tem um papel fulcral. O ECDC recomenda a promoção ativa do rastreio oportunístico de IST, nomeadamente de clamídia em mulheres com idade inferior a 25 anos e homens jovens com múltiplos parceiros, via teste NAAT (zaragatoa vaginal/urina) comparticipado pelo SNS. A análise do risco individual e o uso de medidas preventivas adicionais como a PrEP e a vacinação (HPV, mpox e Hepatite A) são medidas com benefício adicional, contempladas nas normas da DGS.

A consulta de MGF é um momento privilegiado para abordar a sexualidade de forma integrada. Uma abordagem proativa, com garantia de confidencialidade e espaço para dúvidas são estratégias que promovem confiança e melhor adesão às recomendações clínicas. O desafio atual é transformar o conhecimento em comportamento protetor. No fim, o risco não está nos “outros”, está na distância entre o que sabemos e o que fazemos.

Bibliografia

  • European Centre for Disease Prevention and Control. Gonorrhoea: Annual Epidemiological Report for 2023. Stockholm: ECDC; 2025.
  • European Centre for Disease Prevention and Control. Chlamydia: Annual Epidemiological Report for 2023. Stockholm: ECDC; 2025.
  • European Centre for Disease Prevention and Control. Syphilis: Annual Epidemiological Report for 2023. Stockholm: ECDC; 2025.
  • US Preventive Services Task Force. Screening for Chlamydia and Gonorrhea: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. 2021;326(12):949-954.
  • Lei n.º 60/2009, de 6 de agosto. Estabelece o regime de aplicação da educação sexual em meio escolar. Diário da República.
  • World Health Organization Regional Office for Europe; Bundeszentrale für gesundheitliche Aufklärung. Standards for Sexuality Education in Europe. Cologne: BZgA; 2010.
  • Direção-Geral da Saúde. Norma Clínica: 01/2024. Profilaxia de Pré-Exposição ao VIH. Lisboa: DGS; 2024.
  • Direção-Geral da Saúde. Livro Azul de Vacinas: Programa Nacional de Vacinação e outras estratégias de imunização. Lisboa: DGS; 2026.
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