
Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior – Covilhã; Medicina Geral e Familiar – Hospital Lusíadas Lisboa
Medicina Narrativa – Entre o tempo do relógio e o tempo da vida
Na prática da Medicina Geral e Familiar vivemos permanentemente sob a tensão entre agendas, indicadores e métricas de desempenho; o tempo da consulta mede-se em minutos, contudo, o sofrimento humano não se mede e é aqui que a medicina narrativa se afirma, não como ornamento humanista, mas como exigência clínica.
Na fundamentação da antropologia de Miguel de Unamuno encontramos a ideia de que o homem é, antes de tudo, um ser de carne e osso, concreto, situado, que sofre e espera. Já, a filosofia de José Ortega y Gasset recorda-nos: “Eu sou eu e a minha circunstância.” o doente é história, é futuro, é vetorial. O doente que entra no nosso consultório não é apenas portador de diagnósticos; é uma biografia em curso, atravessada por relações, medos, perdas e projetos interrompidos.
A medicina narrativa obriga-nos a distinguir dois regimes de tempo, por um lado O Kronos, que é o tempo cronológico, mensurável, o das listas de utentes e dos rácios assistenciais, por outro lado, O Kairos, que é o tempo oportuno, qualitativo, aquele instante em que o médico reconhece que deve suspender o automatismo técnico para escutar verdadeiramente. Na consulta diária, o desafio não é eliminar o Kronos, isso seria ilusório, mas introduzir o Kairos dentro dele.
Esta dimensão narrativa, ainda ganha maior densidade quando convocamos a Paul Ricoeur e a sua distinção entre idem e ipse. A identidade idem refere-se àquilo que permanece: dados clínicos, antecedentes, biomarcadores. A identidade ipse diz respeito à fidelidade a si mesmo, à promessa, à coerência narrativa que a pessoa constrói ao longo da vida. Um doente pode manter o corpo (idem), mas sentir que perdeu quem era (ipse). Ignorar esta fratura é falhar clinicamente.
Na MGF, onde acompanhamos trajetórias ao longo dos anos, somos guardiões dessa continuidade narrativa. Conhecemos a história antes da doença e, muitas vezes, depois da crise. Esta posição privilegiada exige competência técnica, mas também competência hermenêutica: capacidade de interpretar narrativas, silêncios e ambiguidades.
Num tempo em que a digitalização e a inteligência artificial prometem eficiência acrescida, importa não reduzir o doente a padrão estatístico. A tecnologia organiza o Kronos; apenas a escuta sustenta o Kairos. A medicina narrativa não é oposição à ciência, mas aprofundamento do seu sentido.
Recentrar a consulta na narrativa não significa prolongá-la indefinidamente, mas qualificar a presença, e uma pergunta aberta no momento certo pode evitar exames desnecessários, melhorar adesão terapêutica e restaurar confiança, mais do que técnica adicional, trata-se de atitude clínica.
Para o médico de família, a narrativa não é luxo académico; é ferramenta diagnóstica, ética e relacional, entre o tempo do relógio e o tempo da vida, somos chamados a habitar ambos, sem esquecer que é no segundo que a medicina encontra o seu verdadeiro significado.





