Novos tratamentos da obesidade: Quando a ciência abala o preconceito
Cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo; Coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde; Professor da FMUP; Investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade

Novos tratamentos da obesidade: Quando a ciência abala o preconceito

Nos últimos anos, os avanços da cirurgia metabólica e os novos fármacos baseados em GLP-1 revolucionaram o tratamento da obesidade. Estas intervenções atuam sobre o sistema hormonal que regula a fome, o apetite e o metabolismo, ajudando o corpo a encontrar o seu ponto de equilíbrio metabólico. Os resultados são notáveis: perdas de peso sustentadas, redução do risco cardiovascular e aumento da qualidade de vida.

Mas, paradoxalmente, estes avanços científicos vêm acompanhados de um fenómeno curioso: o desconforto social perante quem recorre a estes tratamentos. Se os doentes optam por tratamentos cirúrgicos estão, aos olhos de muitos, a optar pelo caminho dos preguiçosos que não querem fazer dieta; se, por outro lado, avançam com tratamentos farmacológicos estão a ser egoístas e a “roubar” os fármacos aos que deles precisam para tratar a diabetes.

Durante várias gerações, a sociedade ensinou-nos que manter um peso saudável é uma questão de força de vontade. A magreza foi associada a virtude, disciplina e sucesso pessoal, enquanto a obesidade foi sempre sinónimo de gula, preguiça e falta de vontade. Assim, quando a ciência torna o tratamento da obesidade mais eficaz, ameaça essa ideia de mérito moral. Para muitas pessoas, aceitar a ideia de que a perda de peso possa ser atingida por medicamentos é desconcertante, porque desmonta uma hierarquia invisível onde o controlo do peso era sinónimo de superioridade moral. A resistência aos novos fármacos e à cirurgia metabólica, por parte de alguns profissionais e da população em geral, nasce, muitas vezes, desse desconforto moral. Afinal, para controlar o peso não é necessário sacrifício pessoal, mas regulação hormonal.

No entanto, a biologia não se convence com sermões. A ciência afirma claramente que a obesidade é uma doença crónica, complexa, multifatorial e recidivante. O corpo humano possui mecanismos fisiológicos que defendem o peso elevado, aumentando a fome e reduzindo o metabolismo. Por esse motivo, a dieta e o exercício físico raramente são suficientes para atingir uma perda de peso significativa, a longo prazo.

A cirurgia metabólica e os novos fármacos para o tratamento da obesidade atuam em um ou vários desses mecanismos, restaurando o controlo do apetite, da saciedade e o equilíbrio energético. Diversos estudos demonstram que os efeitos benéficos destes tratamentos vão muito para além do peso, incluindo diminuição de risco de doenças cardiovasculares e oncológicas e melhorias na saúde mental e na qualidade de vida das pessoas.

O maior obstáculo ao tratamento da obesidade, hoje em dia, não é científico: é cultural. Muitos doentes ainda hesitam em procurar tratamento por medo de críticas, e alguns profissionais continuam a ver a medicação ou a cirurgia como um recurso para casos extremos. Mas é tempo de mudar o paradigma!

Tratar a obesidade, com recurso a fármacos ou a cirurgia, não é falta de carácter, é evidência científica. Recusar essa ajuda em nome de um ideal moral anacrónico é perpetuar a doença. Porque no fim do dia, a maior luta já não é contra a doença, é contra o preconceito.

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