“Um médico nas ERPI deveria ser o grande coordenador dos cuidados”
No âmbito da 3.ª Reunião da Associação dos Médicos dos Idosos Institucionalizados (AMIDI), que se realiza a 20 de setembro, o seu presidente, Gorjão Clara, sublinha a urgência de melhorar a assistência prestada nas estruturas residenciais para idosos (ERPI). Em entrevista ao SaúdeOnline, o médico falou da necessidade de haver obrigatoriedade da presença médica nas instituições, do futuro da Geriatria em Portugal e das soluções para promover a qualidade de vida dos idosos institucionalizados.

Quais são os principais objetivos da 3.ª Reunião da Associação dos Médicos dos Idosos Institucionalizados (AMIDI) e o que esperam alcançar com este evento?
Os objetivos da reunião coincidem com os da própria AMIDI. Antes de mais, pretende-se dar a conhecer a associação, criada em 2022 com o objetivo de otimizar a assistência nas ERPI (estruturas residenciais para idosos), os antigos lares. Pretendemos mostrar que a AMIDI está ativa e a trabalhar na formação de todos os que atuam nestas instituições, atualizando conhecimentos nas várias áreas do cuidado a idosos.
Como é sabido, a assistência prestada aos idosos não é a melhor e os lares enfrentam várias deficiências. Uma das principais é que nem todos têm contrato com médicos, uma vez que a lei não obriga.
Quero chamar a atenção para algo que considero impressionante: as ERPI multiplicaram-se nos últimos anos. Existem ERPI legais e clandestinas. Contudo, é impossível acabar com as clandestinas, porque não há destino para esses idosos. Nenhuma tem obrigatoriedade de contratar médicos. Porém, na nossa perspetiva, o médico deveria ser o “grande coordenador” de toda a assistência prestada nas ERPI.
Na Holanda, existe até a especialidade de “médico dos lares”. Em Portugal, apesar de já termos reunido com o Ministério da Saúde e com a Tutela da Solidariedade Social, não consegui que a legislação obrigasse à contratação de médicos.
Há alguma novidade ou tema específico que se destaca nesta edição?
Queremos trazer a experiência de Espanha, onde a contratação de médicos é obrigatória e proporcional ao número de camas da instituição. Teremos como convidada a professora Esther Lueje Alonso, que vai partilhar a realidade das ERPI espanholas.
Abordaremos ainda outros temas relevantes, como a utilização da Inteligência Artificial no apoio a idosos. Esta área não se relaciona tanto com as ERPI, mas com idosos que ainda vivem em casa, muitas vezes isolados, podendo ter, através de programas de Inteligência Artificial, apoio para não se sentirem sozinhos.
Também teremos temas como a disfagia – muitas vezes ignorada, mas com sérias consequências, como as pneumonias de aspiração – e a gestão da medicação nas ERPI.
Refletiremos sobre a elevada idade média atual dos idosos institucionalizados, que ronda os 86 anos, e sobre o aumento do número de comorbilidades nestes doentes.
Como referiu, a AMIDI tem defendido a obrigatoriedade de assistência médica nos lares. Além da questão da legislação, que outros obstáculos existem e como podem ser superados?
O maior obstáculo é a falta de legislação. O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social deveria garantir que, pelo menos nos lares legais, a contratação de médicos fosse obrigatória.
Quais são as principais condições de saúde que afetam os idosos institucionalizados?
A maioria destes doentes apresenta múltiplas patologias. Num estudo realizado há alguns anos, cada idoso internado apresentava em média 7,9 doenças concomitantes. Hoje, com a idade média de 86 anos, é difícil encontrar um idoso institucionalizado que não precise de acompanhamento médico regular. Além disso, cerca de 44% tem demência e 42% depende de terceiros para as atividades básicas da vida diária.
Além da questão da assistência médica, que medidas a AMIDI propõe para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar dos idosos em instituições?
A primeira medida é mesmo garantir assistência médica permanente. Isso melhoraria a qualidade dos cuidados, a dignidade e reduziria a hospitalização desnecessária. É fundamental não esquecer que estas pessoas têm história, identidade e valor, e que devem ser tratadas com humanidade até ao fim da vida.
Um médico que trabalhe numa ERPI deve lá ir todos os dias e estar disponível sempre que chamado. Não pode acontecer que, como atualmente, os idosos sejam enviados para a urgência de um hospital, numa situação aguda. A presença do médico, além de melhorar os cuidados e o bem-estar dos idosos, evita ao Estado os custos da hospitalização que poderia ser prevenida com assistência adequada nas ERPI.
É impressionante o número de idosos que estão à espera, em média cinco meses, de uma vaga numa ERPI. Um internamento inapropriado num hospital acarreta quedas, infeções hospitalares, delírio, perda de autonomia motora, entre outros aspetos. Por isso, é urgente melhorar o número de instituições, garantir assistência médica cuidada e reduzir a hospitalização desnecessária.
Todos devemos ser tratados com humanidade até ao fim da vida. Este facto é frequentemente esquecido em muitas ERPI, onde se ignora quem a pessoa foi, o que pode ser muito frustrante e causa de depressão para os idosos institucionalizados.
Quais são os principais desafios na formação dos médicos para atender adequadamente os idosos institucionalizados?
Tive a sorte de ser o primeiro professor de Geriatria na Faculdade de Medicina de Lisboa, mas a resistência inicial foi grande. Muitos médicos defendiam que os idosos eram apenas “adultos velhos” e que bastava reduzir a dose dos medicamentos, o que revela ignorância. Os idosos têm especificidades próprias, tal como as crianças, o que justificou a criação da Pediatria há mais de 100 anos.
Portanto, a Geriatria deve existir em Portugal, tal como em todos os países civilizados, e é importante que, no futuro, a Ordem dos Médicos reconheça a especialidade.
Infelizmente, em Portugal existe apenas a competência em Geriatria e algumas formações pós-graduadas. Fundei, com outros colegas, o Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, que tem crescido em importância e que permite fazer formação pós-graduada.
Contudo, é necessário haver unidades de Geriatria nos hospitais, porque só o ensino prático permite formar médicos preparados para tratar estes doentes — uma luta que levei muitos anos até me reformar.
Como vê o futuro da Geriatria em Portugal?
Estou convicto de que vai singrar, porque é eficaz e necessária. A palavra “Geriatria” foi criada em 1908, existe há mais de 100 anos e expandiu-se em todo o mundo civilizado. Se se desenvolveu ao longo deste tempo nos outros países, também se desenvolverá em Portugal.
É urgente criar unidades nos hospitais e tornar o ensino obrigatório em todas as faculdades de Medicina, seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Não podemos continuar a ser os últimos da Europa nesta área.
Sílvia Malheiro
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