O que nos dizem os números mais recentes no que diz respeito à incidência e à prevalência da DMT2 em Portugal?

O que sabemos da diabetes em Portugal é que continuamos a ser um dos países da Europa com os números mais elevados, seja em novos casos – calculamos que todos os anos aparecem cerca de 60 mil novos casos de diabetes, cinco mil casos por mês – seja na prevalência, que é uma das mais elevadas da Europa. Nesta altura, calcula-se que acima de 13,6% da população portuguesa tenha diabetes, ou seja, vamos já muito além de um milhão de pessoas que vive com diabetes em Portugal.

Outra questão que nos preocupa é que nesse mais de um milhão de pessoas que vive com diabetes, calculamos que quase 40% delas não sabe do seu diagnóstico. Estão, portanto, por diagnosticar, por entrar nos cuidados de saúde, por ter os cuidados adequados e não os tendo podem estar a evoluir para as complicações da diabetes.

Nestes 40% que estão por diagnosticar, o que falta fazer para que profissionais de saúde estejam mais atentos à necessidade de rastreio da diabetes?

Essa população que está por diagnosticar é, muito provavelmente, uma população mais ativa, que não recorre habitualmente aos médicos de família. Não é propriamente a população que vai ao centro de saúde e ao médico de família que está por diagnosticar.

 

“A ideia que continua a circular é que as pessoas não associam a diabetes a uma doença grave”

O que precisamos é de uma estratégia que vá ter com as pessoas, por exemplo aos locais onde estão a trabalhar, para aí fazer o rastreio. Precisamos de uma estratégia que vá além do médico de família, passe pela medicina do trabalho, passe por invocar a responsabilização das pessoas para conhecerem o seu risco de diabetes, através de campanhas de proximidade em colaboração com as câmaras municipais ou as juntas de freguesia. As pessoas vão calcular o seu risco de diabetes, que é um questionário muito simples de preencher, e quem tenha um risco elevado ou muito elevado deverá contactar um profissional de saúde para fazer um teste de diagnóstico.

Sobre as complicações da DMT2, os dados dizem que há cerca de oitos anos de vida perdidos por cada óbito causado por esta doença. As complicações causadas da diabetes desempenham um papel importante nestes desfechos?

Sim. A ideia que continua a circular é que as pessoas não associam a diabetes a uma doença grave. Como é uma doença muito assintomática, as pessoas que têm diabetes não se apercebem da gravidade da situação e o valor percecionado da doença em termos na comunidade é baixo. As pessoas não se apercebem que, quando estamos a falar em Portugal das taxas de mortalidade cardiovascular e dos AVC’s uma proporção significativa da mortalidade por estas causas está associada à diabetes.

Assim como o maior número das amputações não traumáticas tem como causa a diabetes e a principal causa de cegueira é, também, a diabetes.

Estamos a falar de uma doença que mata, que incapacita, que tem uma prevalência elevada e é realmente um problema de saúde pública significativo.

Relativamente às respostas terapêuticas disponíveis, estas já conseguem tratar a doença de base e prevenir estas comorbidades?

Uma coisa é a nossa definição do que, teoricamente, podemos fazer e hoje temos meios e recursos que tornam mais fácil prevenir as complicações, diagnosticá-las, tratá-las mais cedo e tratá-las de uma maneira eficaz. Conseguimos já mudar muito o panorama das complicações.

 

“Temos necessidade de incluir mais pessoas no rastreio da retinopatia diabética”

 

Outra coisa é a resposta do Estado, que pode dar melhor ou pior uso a essas ferramentas. Em Portugal ainda temos necessidade de incluir mais pessoas no rastreio da retinopatia diabética. O que se pretende é que façam o rastreio anual, que essas imagens do fundo do olho sejam lidas, classificadas e, de acordo com essa classificação, sejam ou não encaminhadas para Oftalmologia. Nessa medida, precisamos de melhor resposta das consultas de Oftalmologia para as pessoas fazerem o tratamento o mais cedo possível.

A mesma coisa acontece no pé diabético. Tínhamos números elevados de amputações e houve um investimento significativo na formação e no equipamento das consultas de pé diabético nos cuidados de saúde primários e pensamos que a melhoria nos últimos anos em relação ao número de amputações tem muito a ver com esta atuação dos centros de saúde.

Mas, temos noção que em muitos hospitais ainda é preciso organizar equipas para lidar com o pé diabético. Têm de ser equipas multidisciplinares, treinadas na abordagem desta situação.

As ferramentas já existem é necessário que cheguem a quem delas precisem é isso?

O investimento será sempre considerado significativo. Estamos a falar de uma doença que afeta muitas pessoas e têm de se tomar decisões em termos de estratégia de saúde e saber onde vale a pena fazer investimentos de maneira a não acontecer aquilo que acontece em Portugal:  num ano normal, 10 % da despesa de saúde em Portugal está associada à diabetes e uma parte significativa tem a ver com hospitalizações decorrentes das complicações desta doença.

 

“10 % da despesa de saúde em Portugal está associada à diabetes”

 

Ou seja, continuamos a gastar muito dinheiro com as fases avançadas da doença quando, eventualmente, teríamos melhores resultados se esse investimento fosse deslocado para fases mais iniciais, no diagnóstico precoce da diabetes e no diagnóstico precoce das complicações.

Atendendo ao que se sabe no terreno, com as dificuldades de acesso a cuidados de saúde, teme que a pandemia por SARS-CoV 2 venha pôr em causa o trabalho feito para minorar o impacto da diabetes e sobretudo, agudize o cenário das complicações?

Temos dois níveis de preocupações. Uma é que, provavelmente, devido ao período de confinamento atrasámos muitos dos diagnósticos da diabetes. Dos tais 60 mil novos diagnósticos anuais, este ano teremos menos, o que indica que também atrasamos o início o tratamento dessas pessoas.

Por outro lado, no acompanhamento das pessoas já diagnosticadas com diabetes foi fantástico perceber que se conseguiu montar respostas de acompanhamento à distância, através das consultas telefónicas e de alguma tecnologia que nos ajuda a perceber como é que as pessoas estão em casa.

Mas, na realidade, quando falamos do rastreio das complicações e do tratamento adequado aí temos um ponto crítico porque essas consultas são presenciais, as pessoas têm de se deslocar. Sabemos também que muitos dos programas de rastreio foram interrompidos e ainda não retomaram e os que retomaram, como a comunicação de que as pessoas com diabetes são um grupo de risco significativo para as complicações graves de Covid-19, as pessoas não comparecem nos seus locais de rastreio. Essa situação levará inevitavelmente ao aparecimento de formas mais graves de complicações quando nos cuidados de saúde retomarem a forma habitual da atividade clínica.

RV/SO

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