Professor do Departamento de Ciências Médicas e da Saúde da Universidade de Évora, assessor da Direção da APDP, vice-presidente da Federação Internacional da Diabetes.

40 anos de uma vida com diabetes tipo 1

Percurso na diabetes

Tenho diabetes tipo 1 há 40 anos, durante os quais, a vivência com a diabetes foi pautada por inúmeros altos e baixos, embora nunca tenha tido uma relação problemática com a diabetes. Estas oscilações, a todos os níveis, são inevitáveis para que vive com uma doença crónica, mesmo em quem tem o controlo ótimo. Há 40 anos usava uma seringa de vidro, que tinha que estar imersa em álcool e, antes da injeção, tinha de secar a seringa, secar a agulha numa lamparina e depois fazer a injeção. As insulinas eram também muito diferentes do que são hoje em dia, não havia máquinas de medição de glicémia e os sensores contínuos de glicémia eram pura ficção cientifica. Desde essa altura muito evoluiu no tratamento da diabetes, por exemplo, hoje uso uma bomba de insulina que está conectada a um sensor contínuo de glicémia e que vai ajustando automaticamente a insulina basal ao longo do dia conforme as minhas necessidades. Até esta bomba, dita, inteligente, passei por diversas etapas na administração de insulina com o uso de seringas plásticas, canetas de insulina e depois várias evoluções da bomba de insulina. O mesmo aconteceu com a determinação da glicémia, o nível de açúcar no sangue. Quando eu comecei, usava uma tira, onde se colocava uma gota de sangue, depois de esperar um minuto a tira era limpa com algodão e, após esperar mais um minuto, a cor da tira era então comparada com uma escala de cores que estava na caixa das tiras teste. O resultado final era um valor aproximado dentro de uma gama mais ou menos ampla. O surgimento das máquinas de determinação da glicémia foram um grande avanço tecnológico no tratamento da diabetes. Surgiram ao longo dos anos muitos modelos destas máquinas, com a necessidade uma gota de sangue menor e com maior rapidez. Neste percurso de 40 anos a conviver com a diabetes posso dizer que já assisti a bastantes inovações nesta área.

Todas estas inovações permitiram melhorar a qualidade de vida das pessoas e permitir um melhor controlo da diabetes. Isso dá mais flexibilidade à vida de cada um, acaba por ser mais fácil fazer o controlo desejado, com menos chatices. Mas há também o reverso da medalha: todos estes mecanismos, que são bons, são ótimos, permitem um controlo mais apertado, mas também têm um peso extra em termos de impacto na pessoa, pela pressão que exercem na pessoa e pelo tempo extra que implica na gestão da diabetes. Mas são sistemas fabulosos, que ajudam bastante na vida dos doentes com diabetes

As pessoas com diabetes tentam sempre, no fundo, mimetizar externamente aquilo que o pâncreas de uma pessoa sem diabetes faz internamente.

 

Percurso na APDP

Sou de Évora e morava lá quando tive os sintomas típicos da diabetes: sede intensa, volume urinário muito grande e cansaço. Os meus pais levaram-me ao médico em Évora, que rapidamente diagnosticou a diabetes, fazendo um ensaio com uma tira na urina. Fomos de imediato encaminhados para a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), onde orgulhosamente tenho as minhas consultas periódicas há 40 anos. A minha ligação à APDP foi, e ainda é, como doente, mas ao longo dos anos tive o prazer de poder contribuir a outros níveis tal como membro da direção, da comissão de ética e nos campos de férias educativos para jovens com diabetes, uma das atividades que me mais satisfação me deu realizar e onde tive o privilégio de trabalhar com equipas de técnicos de saúde, e outras pessoas com diabetes, fabulosas e com uma dedicação enorme.

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