Médico Oftalmologista

Despesas em Saúde Gastar Mais Não Significa Tratar Melhor…

Hospital CUF Infante Santo

Esta afirmação é seguramente consensual e foi agora reforçada num interessante estudo publicado no Journal of the American Medical Assocation (JAMA Internal Medicine, a 13 de Março) pelo Professor Yusuke Tsugawa, responsável pelo Departamento de Gestão e Políticas de Saúde da Harvard T. H. Chan School of Public Health, em Boston.

Os gastos em Saúde tendem a ser crescentes, dados os custos dos novos medicamentos, das novas técnicas de diagnóstico, dos avanços cirúrgicos, etc e, portanto, é inevitável que tal aconteça. Se a isso somarmos o aumento da esperança média de vida, temos cada paciente a requerer mais cuidados de saúde, mais complexos e mais onerosos, durante um período de tempo cada vez maior.

Por tudo isso, e não só por isso, uma gestão responsável e consciente dos recursos disponíveis é essencial e deve ser praticada por todos: médicos, enfermeiros, gestores e pelos próprios pacientes que, com frequência, se automedicam e se submetem a exames desnecessários.

A Medicina tem evoluído muito no sentido da tecnologia mas, como já escrevi, não pode nunca afastar-se das suas raízes, do saber baseado na experiência e na intuição, no diálogo e na interacção com os pacientes. A subjectividade da prática médica é atenuada pela tecnologia mas não poderá nunca ser abolida, por mais exames que se realizem e tratamentos que se prescrevam.

Por outro lado, os fenómenos de litígio têm-se revelado mais comuns e geram nos médicos a prática de uma Medicina mais defensiva, na qual os exames são requisitados, não por serem considerados necessários, mas apenas para que nunca possa ser invocada a sua ausência. E aqui surge mais desperdício, mais perda de tempo, maior risco de efeitos secundários e, sobretudo, uma Medicina descaracterizada e pouco eficaz.

Temos a noção de que o número de tomografias computorizadas, de ressonâncias magnéticas de análises laboratoriais requisitadas sem uma necessidade bem fundamentada é significativo, do mesmo modo que são utilizados antibióticos e outros medicamentos sem uma indicação clínica válida. E tudo isto significa gastar mais sem tratar melhor. Pelo contrário…

Voltando ao trabalho aqui referido, verificou-se que os doentes tratados por médicos que pedem exames mais dispendiosos apresentam a mesma probabilidade de serem readmitidos no hospital ou de morrerem num intervalo de 30 dias do que os doentes acompanhados por médicos que recorrem a exames e tratamentos menos onerosos.

Nos Estados Unidos da América, os gastos com saúde variam muito de umas regiões para outras e mesmo entre hospitais de uma mesma comunidade. Provavelmente, o mesmo ocorrerá noutros países, incluindo Portugal.

Por outro lado, o que este estudo revela é que existem diferenças importantes, no que se refere a gastos, entre médicos de um mesmo hospital, o que permitiu avaliar o potencial impacto dessas diferenças no prognóstico dos doentes. Essa diferença pode ser superior a 40% e não é fácil entender como podem médicos de uma mesma unidade exibir abordagens tão distintas no tratamento dos seus doentes… Provavelmente, não existirá uma explicação válida para tais disparidades e elas poderão ser meramente aleatórias.

Uma possível explicação poderá residir no nível de experiência de cada médicos. Profissionais menos experientes poderão tender a solicitar mais exames de modo a compensarem a sua menor vivência clínica…

Mas o ponto relevante, mais do que se procurar razões para estas observações, é constatar que a qualidade dos cuidados prestados aos doentes e o seu prognóstico clínico é equivalente quando se comparam médicos que gastam mais com aqueles que gastam menos.

Para lá destes aspectos, muito interessantes e a merecerem reflexão, resulta deste estudo algo que já todos nós sabemos mas  é crucial recordar: o desperdício em saúde é grande e importa ser identificado e corrigido. Sendo cada vez mais verdade que a saúde é cara, despesas redundantes ou potencialmente prejudiciais deverão ser eliminadas, assim se libertando recursos que poderão ser adequadamente utilizados.

Este estudo focou-se nos médicos internistas mas as suas conclusões podem ser extrapoladas para outros profissionais de saúde.

Curiosamente, as variações nos gastos foram mais significativas dentro de um mesmo hospital do que entre hospitais diferentes. Como tal, a implementação de políticas que visem uma melhor utilização dos recursos em saúde deve ter em conta os médicos individualmente e não cada hospital per se.

A dificuldade reside em como executar semelhante medida. A prática médica é, por definição, subjectiva e não se pode exigir que todos os médicos abordem os doentes da mesma forma, sob pena de despersonalizar e descaracterizar a essência da Medicina.

Como tal, o melhor caminho será a sensibilização e a elaboração de estudos como este que estimulam à reflexão e que, seguramente, ajudarão cada um de nós a pensar sobre o modo como exercemos a nossa actividade. Desse modo, seremos capazes de identificar os passos que podemos dar para salvaguardar recursos que são de todos, sem nunca comprometermos a saúde dos doentes que em nós confiam.

Medidas de carácter mais restritivo ou punitivo dificilmente permitirão bons resultados e não me revejo em estratégias que recompensem ou penalizem os profissionais de acordo com o custo-efectividade do seu trabalho…

Seguramente, nenhum médico gastará mais dinheiro apenas porque sim e, por isso, uma reflexão tranquila e ponderada associada à apresentação de dados concretos que, como neste estudo,  correlacionem qualidade e custos em saúde fará com que todos vão afinando o seu perfil de árvore de decisão e de tratamento no sentido de optimizar os recursos disponíveis.

Tratar bem significa, antes de tudo o mais, oferecer o melhor da Medicina a cada paciente, encará-lo como um ser único que, num momento de fragilidade, precisa de nós. Depois, e só depois, tratar bem deve significar gastar bem e não gastar muito, porque os recursos são finitos e a sua gestão é da responsabilidade de todos nós.

 

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